Basta uma noite ao ar livre para o fenômeno aparecer. Enquanto algumas pessoas acumulam picadas de mosquito em poucos minutos, outras parecem passar despercebidas pelos insetos. Durante décadas, a explicação popular foi simples: quem atraía mais pernilongos teria o famoso “sangue doce”. Mas a ciência vem desmontando essa crença e revelando uma realidade muito mais complexa. O segredo não está no sangue, mas em uma combinação surpreendente de química corporal, metabolismo e microrganismos que vivem na nossa pele.
O verdadeiro alvo dos mosquitos não é o sangue

Quando um mosquito procura uma vítima, ele não está analisando o sangue antes de decidir quem atacar. Na verdade, a escolha acontece muito antes da picada.
Esses insetos possuem um sofisticado sistema sensorial capaz de detectar sinais emitidos pelo corpo humano. Um dos mais importantes é o dióxido de carbono liberado durante a respiração. A partir dele, os mosquitos conseguem localizar potenciais hospedeiros mesmo a vários metros de distância.
Mas o dióxido de carbono é apenas o começo. Quando se aproximam, os insetos passam a identificar uma série de substâncias químicas presentes no suor e na superfície da pele.
Cada pessoa produz uma combinação única desses compostos, criando uma espécie de assinatura química individual. É justamente essa assinatura que ajuda os mosquitos a decidir quem será a próxima vítima.
Entre as substâncias mais associadas à atração dos insetos estão os chamados ácidos carboxílicos, moléculas produzidas naturalmente pelo organismo e liberadas pela pele.
Pesquisas indicam que algumas pessoas apresentam concentrações muito maiores desses compostos, tornando-se especialmente atraentes para os mosquitos.
Isso ajuda a explicar por que, mesmo em um grupo com características semelhantes, algumas pessoas parecem funcionar como verdadeiros ímãs para pernilongos.
Os microrganismos da pele desempenham um papel fundamental

Outro fator que vem chamando a atenção dos cientistas é a microbiota cutânea.
A pele humana abriga bilhões de microrganismos, incluindo bactérias, fungos e outros organismos microscópicos que convivem conosco diariamente. Embora invisíveis a olho nu, eles influenciam diretamente os odores que nosso corpo produz.
Esses microrganismos metabolizam compostos presentes na pele e geram moléculas voláteis que são facilmente detectadas pelos mosquitos.
Como a composição da microbiota varia de pessoa para pessoa, os odores resultantes também são diferentes. Isso significa que dois indivíduos com hábitos praticamente idênticos podem emitir sinais químicos completamente distintos para os insetos.
Um estudo publicado em 2025 na revista Journal of Agricultural and Food Chemistry, liderado pela pesquisadora Hui Wang, reforçou essa hipótese.
A pesquisa mostrou que alterações na microbiota da pele podem modificar a produção de compostos químicos associados à atração de mosquitos. Os resultados sugerem que a relação entre os microrganismos e o metabolismo cutâneo tem papel decisivo no comportamento desses insetos.
A descoberta amplia a compreensão sobre como fatores biológicos invisíveis influenciam algo tão cotidiano quanto o número de picadas recebidas durante uma noite de verão.
O estudo que ajudou a derrubar o mito do “sangue doce”
Uma das pesquisas mais importantes sobre o tema foi publicada na revista Cell em 2022 e liderada pela cientista Maria Elena De Obaldia.
Os pesquisadores compararam pessoas consideradas extremamente atraentes para mosquitos com outras que raramente eram escolhidas pelos insetos.
Os resultados mostraram uma diferença clara na composição química da pele. Os participantes mais atacados apresentavam concentrações significativamente maiores de determinados ácidos carboxílicos.
Outro detalhe chamou a atenção dos cientistas: essa característica permaneceu relativamente estável ao longo do tempo. Mesmo anos depois, as mesmas pessoas continuavam atraindo mais mosquitos.
Isso sugere que a tendência de ser mais ou menos atraente para esses insetos pode estar associada a características biológicas duradouras, e não apenas a fatores temporários.
Embora não seja possível alterar completamente essa predisposição natural, algumas medidas ajudam a reduzir o risco de picadas.
O uso de repelentes continua sendo uma das estratégias mais eficazes. Também é recomendável evitar o acúmulo excessivo de suor, utilizar roupas que cubram braços e pernas em áreas com alta presença de mosquitos e eliminar recipientes com água parada próximos às residências.
Enquanto os pesquisadores continuam investigando os mecanismos que orientam a escolha dos mosquitos, uma conclusão já parece definitiva: o velho conceito de “sangue doce” não encontra respaldo científico. O que realmente atrai esses insetos é uma combinação complexa de compostos químicos, atividade metabólica e bilhões de microrganismos que vivem silenciosamente na superfície da nossa pele.
[Fonte: R7]