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Ciência

Maioria dos países aprova novo tratado da ONU para proteger os oceanos em águas internacionais

Em um raro momento de cooperação global, um novo tratado da ONU entra em vigor para regular áreas do oceano fora das fronteiras nacionais. O acordo abre caminho para a criação de áreas marinhas protegidas em alto-mar e estabelece regras para o uso de recursos genéticos. Mas sua implementação ainda enfrenta desafios políticos e técnicos.
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Tempo de leitura: 3 minutos

Em meio a um cenário internacional marcado por conflitos e disputas geopolíticas, um consenso inesperado acaba de surgir. A partir de 17 de janeiro, entra em vigor um novo tratado das Nações Unidas voltado à proteção dos oceanos em águas internacionais — regiões que representam cerca de dois terços do mar aberto do planeta. O acordo promete mudar a forma como esses espaços são governados, trazendo novas regras para conservação e uso sustentável.

Um novo marco para o alto-mar

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© Pexels

O acordo é oficialmente chamado de Biodiversity Beyond National Jurisdiction (BBNJ), ou Biodiversidade Além das Jurisdições Nacionais. Na prática, trata-se do primeiro tratado global criado especificamente para regular áreas oceânicas que não pertencem a nenhum país.

Entre seus principais avanços está a possibilidade de criar áreas marinhas protegidas em alto-mar, funcionando de maneira semelhante aos parques nacionais em terra firme. Essas zonas poderão limitar atividades humanas em regiões ecologicamente sensíveis, ajudando a preservar habitats, espécies migratórias e cadeias alimentares inteiras.

O tratado também estabelece regras para o compartilhamento de recursos genéticos marinhos — como microrganismos e compostos naturais encontrados em águas profundas — e de eventuais lucros derivados deles. Esses materiais são cada vez mais valiosos para pesquisas farmacêuticas, cosméticas e biotecnológicas, e o novo acordo busca evitar que apenas países ricos se beneficiem dessas descobertas.

Como o tratado saiu do papel

Embora tenha sido aprovado em junho de 2023, o acordo só pôde entrar em vigor após alcançar o número mínimo de 60 países que o ratificaram formalmente. Esse marco foi atingido em setembro, quando o Marrocos se tornou o 60º signatário.

Desde então, outros 21 países também ratificaram o texto, enquanto mais 64 já o assinaram, comprometendo-se a concluir o processo internamente. Ainda assim, algumas ausências chamam atenção. A Rússia não assinou o tratado. Os Estados Unidos chegaram a aderir ao acordo em 2023, durante o governo Biden, mas até agora não avançaram para a ratificação.

Para especialistas, o volume de adesões já representa um feito significativo, considerando a complexidade das negociações e os interesses econômicos envolvidos.

Limites e áreas cinzentas do acordo

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Apesar do otimismo, o tratado não resolve todos os problemas relacionados à governança dos oceanos. Um dos pontos mais sensíveis é a pesca em águas internacionais. O texto cria estruturas de cooperação, mas não estabelece mecanismos diretos e fortes de fiscalização sobre frotas pesqueiras, o que pode dificultar o combate à sobrepesca.

Outro limite importante é a mineração em águas profundas. Essa atividade continua sob responsabilidade da Autoridade Internacional dos Fundos Marinhos, um órgão separado da ONU. Ou seja, o novo tratado não tem poder direto para barrar projetos de extração no leito oceânico, tema cada vez mais controverso entre cientistas e ambientalistas.

Ainda assim, pesquisadores veem o acordo como um passo essencial para preencher lacunas históricas na proteção do alto-mar.

Um teste para a cooperação internacional

Para Callum Roberts, professor de conservação marinha da Universidade de Exeter, no Reino Unido, o tratado inaugura uma nova fase na regulação internacional dos oceanos. Segundo ele, os mecanismos existentes até agora não foram suficientes para conter a degradação ambiental em larga escala.

Roberts afirma que o acordo será um verdadeiro teste da capacidade dos países de trabalharem juntos em prol de um bem comum. A implementação exigirá coordenação entre governos, agências reguladoras, cientistas e organizações da sociedade civil, além de investimentos em monitoramento e fiscalização.

Em um planeta onde cerca de 90% do comércio global depende do transporte marítimo e milhões de pessoas vivem direta ou indiretamente da pesca, proteger o alto-mar não é apenas uma questão ambiental — é também econômica e social.

O novo tratado não é uma solução mágica. Mas, em tempos de fragmentação política, ele simboliza algo raro: a disposição da maior parte do mundo em cooperar para preservar um dos sistemas mais vitais da Terra.

 

[ Fonte: The Conversation ]

 

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