Os chamados “murder maps” (mapas de assassinatos) foram desenvolvidos por pesquisadores do Reino Unido e dos Estados Unidos, que analisaram inquéritos históricos sobre mortes suspeitas. O estudo detalha quando, onde e como ocorreram os crimes e, em alguns casos, até os motivos por trás deles.
Oxford: jovens, armados e perigosos
Entre os achados mais surpreendentes, Oxford se destacou com uma taxa de homicídios três a quatro vezes maior que a de Londres ou York. E o motivo é curioso: a universidade.
Na época, o universo acadêmico atraía jovens de 14 a 21 anos, muitos vindos de regiões distantes, armados e imersos em culturas de honra e lealdade ao grupo. Os estudantes se organizavam em “nações”, formadas por colegas da mesma região, e as disputas entre nortistas e sulistas frequentemente acabavam em batalhas campais.
“Os alunos viviam longe de casa, armados, e defendiam o prestígio de suas regiões. Isso criava uma mistura explosiva”, explicam os criminologistas Stephanie Brown (Universidade de Hull) e Manuel Eisner (Universidade de Cambridge), coautores do estudo.
Para piorar, estudantes tinham privilégios legais e muitas vezes eram considerados acima da lei comum. Resultado: boa parte dos crimes ocorria dentro ou próximo ao bairro universitário — e ficava impune.
Londres: brigas por honra e poder
Já em Londres, os pontos mais violentos estavam no Westcheap, centro comercial e cerimonial da cidade, e na região portuária da Thames Street.
- No Westcheap, os assassinatos eram motivados por rivalidades entre guildas, disputas profissionais e vinganças públicas.
- Na Thames Street, marinheiros e comerciantes se enfrentavam com frequência, muitas vezes embriagados após dias de negociação intensa.
Aqui, a violência tinha um componente teatral: cometer um crime em público reforçava status, reputação e poder.
York: o comércio como gatilho para conflitos
Em York, os maiores índices de homicídios aconteciam nos portões da cidade, áreas de grande fluxo comercial e social. Com viajantes, mercadores e locais circulando juntos, conflitos eram inevitáveis.
Outro ponto crítico era Stonegate, uma rua nobre que fazia parte da rota cerimonial da cidade. Ali, assassinatos também eram comuns — prova de que até áreas ricas eram palco para disputas de prestígio e honra.
Mortes em público eram parte do jogo
O estudo revela que, em todas as cidades, muitos homicídios aconteciam em locais simbólicos e de alta visibilidade. Isso não era coincidência: cometer um crime diante de todos podia consolidar reputações ou enviar recados sangrentos aos rivais.
Curiosamente, os bairros mais pobres registravam menos investigações sobre mortes suspeitas. Os pesquisadores levantam a hipótese de que havia menos interesse em apurar crimes nessas áreas, o que pode distorcer os números reais.
Bebedeira, esporte e violência
Outro detalhe curioso: os domingos eram os dias mais letais. Os moradores iam à missa pela manhã e, depois, o dia se transformava em uma combinação perigosa de bebida, esportes e brigas.
Era um ciclo: encontros sociais geravam disputas, disputas viravam ofensas à honra e ofensas à honra acabavam resolvidas à espada.
Da Idade Média aos dias de hoje
Além de reconstruir padrões de violência urbana, os pesquisadores também investigaram por que os homicídios caíram drasticamente ao longo dos séculos. Entre os fatores possíveis estão:
- Melhorias na governança urbana
- Organização espacial das cidades
- Maior eficácia dos sistemas legais
Hoje, as brigas universitárias podem terminar em suspensões, expulsões ou, no máximo, vídeos virais. Na Idade Média, o risco de sair ferido — ou morto — era real.
Estudantes que brigam por rivalidade regional, marinheiros que se enfrentam nos portos, comerciantes duelando por status… A violência medieval era tão pública quanto simbólica. E você, imaginava que os “calouros” de Oxford eram mais perigosos do que bêbados de fraternidade hoje?