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Ciência

Mercúrio guarda gelo em um dos lugares mais improváveis do Sistema Solar — e cientistas acreditam ter descoberto como toda essa água chegou lá em um único dia

O planeta mais próximo do Sol abriga depósitos de gelo em suas regiões polares, um paradoxo que intriga astrônomos há décadas. Agora, uma nova pesquisa sugere que toda essa água pode ter sido entregue por um único impacto colossal, capaz de transformar Mercúrio em apenas um dia mercuriano.
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Tempo de leitura: 3 minutos

À primeira vista, Mercúrio parece ser o último lugar do Sistema Solar onde alguém procuraria água. O pequeno planeta orbita tão perto do Sol que suas temperaturas diurnas ultrapassam facilmente os 400°C. Ainda assim, observações feitas nas últimas décadas revelaram a existência de enormes depósitos de gelo escondidos em crateras permanentemente sombreadas. Agora, uma nova pesquisa apresenta uma explicação surpreendente: toda essa água pode ter chegado ao planeta após um único e gigantesco impacto ocorrido há bilhões de anos.

Um planeta escaldante que esconde gelo nos polos

Mercúrio ocupa uma posição extrema no Sistema Solar.

Por estar mais próximo do Sol do que qualquer outro planeta, sua superfície recebe uma quantidade de radiação muito superior à que chega à Terra.

Para um observador em Mercúrio, o Sol pareceria mais de três vezes maior no céu e brilharia com intensidade muito superior à que vemos daqui.

Durante o dia, as temperaturas podem atingir cerca de 430°C.

À noite, porém, a ausência de uma atmosfera significativa provoca uma queda drástica, fazendo os termômetros despencarem para aproximadamente -180°C.

Mesmo assim, a descoberta de gelo nos polos continuava parecendo improvável.

As manchas brilhantes que intrigaram os cientistas

As primeiras pistas surgiram ainda na década de 1990.

Observações realizadas a partir da Terra identificaram regiões extremamente refletivas próximas aos polos norte e sul de Mercúrio.

Esses pontos brilhantes levantaram a hipótese de que poderiam ser depósitos de gelo.

A confirmação veio anos depois com a missão MESSENGER, da NASA.

Em 2011, a sonda se tornou a primeira nave espacial a entrar na órbita de Mercúrio e confirmou a existência de grandes reservas de água congelada escondidas em crateras permanentemente protegidas da luz solar.

Mas uma pergunta permaneceu sem resposta: de onde veio toda essa água?

O impacto que pode ter mudado tudo

Para investigar o mistério, pesquisadores liderados por Parvathy Prem, do Laboratório de Física Aplicada da Universidade Johns Hopkins, desenvolveram simulações detalhadas da superfície e das temperaturas do planeta.

Os resultados apontaram para um cenário dramático.

Segundo o estudo, um asteroide ou cometa com aproximadamente 17 quilômetros de diâmetro teria colidido com Mercúrio a velocidades que poderiam chegar a 30 quilômetros por segundo.

A energia liberada pelo impacto teria sido suficiente para vaporizar enormes quantidades de água e lançar material para toda a superfície do planeta.

Uma atmosfera temporária surgiu após a colisão

Os pesquisadores acreditam que, cerca de uma hora após o impacto, Mercúrio ficou envolto por uma atmosfera densa e temporária composta principalmente por vapor d’água.

Embora o planeta não consiga manter uma atmosfera permanente, essa camada teria existido por tempo suficiente para desempenhar um papel crucial.

Normalmente, a intensa radiação ultravioleta do Sol destruiria rapidamente as moléculas de água por meio de um processo chamado fotólise.

Mas a própria densidade dessa atmosfera temporária teria funcionado como uma espécie de escudo protetor.

Isso permitiu que uma quantidade significativa de água sobrevivesse ao ambiente hostil e migrasse gradualmente para as regiões polares.

O esconderijo perfeito para a água

Ao chegar aos polos, a água encontrou refúgio em crateras que jamais recebem luz solar direta.

Essas áreas permanecem permanentemente congeladas, criando condições ideais para preservar o gelo durante bilhões de anos.

Segundo os modelos desenvolvidos pelos pesquisadores, um único impacto suficientemente grande poderia explicar praticamente todos os depósitos de gelo atualmente observados em Mercúrio.

Se a hipótese estiver correta, a maior parte da água do planeta teria sido entregue e armazenada em apenas um dia mercuriano — equivalente a cerca de 157 dias terrestres.

Uma nova missão pode trazer respostas definitivas

Os cientistas esperam obter mais informações nos próximos anos graças à missão BepiColombo.

Desenvolvida em parceria pela Agência Espacial Europeia (ESA) e pela Agência Espacial Japonesa (JAXA), a missão foi lançada em 2018 e está programada para entrar na órbita de Mercúrio em novembro.

Com instrumentos mais avançados do que os utilizados pela MESSENGER, a nave poderá investigar a composição dos depósitos polares e oferecer novas pistas sobre a origem da água.

Se as evidências confirmarem a nova teoria, Mercúrio deixará de ser apenas o planeta mais próximo do Sol para se tornar também o cenário de um dos eventos mais extraordinários da história do Sistema Solar.

 

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