Pular para o conteúdo
Ciência

Os oceanos da Terra estão perdendo oxigênio rapidamente — e isso pode desestabilizar o planeta, alertam cientistas

Um novo estudo propõe que a perda de oxigênio nos oceanos, rios e lagos seja reconhecida como um novo limite planetário. Segundo os pesquisadores, o fenômeno, impulsionado pelas mudanças climáticas e pela poluição, ameaça ecossistemas aquáticos e pode provocar impactos irreversíveis para a estabilidade da Terra.
Por

Tempo de leitura: 4 minutos

Os oceanos da Terra estão passando por uma transformação silenciosa, mas potencialmente devastadora. À medida que as atividades humanas aquecem o planeta e aumentam a poluição por nutrientes, a quantidade de oxigênio dissolvido na água vem diminuindo de forma constante, colocando em risco a vida marinha e o equilíbrio dos ecossistemas aquáticos.

Agora, um grupo internacional de pesquisadores defende que esse fenômeno, conhecido como desoxigenação aquática, seja incluído no conceito de Limites Planetários, estrutura científica que identifica os processos essenciais para manter a estabilidade do sistema terrestre.

Segundo os autores, a perda de oxigênio não é apenas uma consequência das mudanças climáticas, mas um fator que também intensifica outros problemas ambientais e pode levar partes da biosfera a um ponto de difícil reversão.

Por que os oceanos estão perdendo oxigênio?

Embora a água seja formada por hidrogênio e oxigênio (H₂O), esse oxigênio faz parte da molécula da água e não pode ser utilizado pelos organismos para respirar.

Peixes, moluscos, crustáceos e inúmeros outros seres aquáticos dependem do chamado oxigênio dissolvido, que consiste em moléculas de oxigênio (O₂) presentes na água.

O problema é que esse recurso está diminuindo rapidamente.

O principal responsável é o aquecimento global. À medida que a temperatura da água aumenta, sua capacidade de armazenar oxigênio diminui. Além disso, as camadas superficiais mais quentes dificultam a circulação da água, reduzindo a chegada de oxigênio às regiões mais profundas dos oceanos.

Outro fator importante é a poluição causada pelo excesso de nutrientes.

Fertilizantes agrícolas, esgoto, águas pluviais contaminadas e resíduos industriais despejam grandes quantidades de nitrogênio e fósforo em rios, lagos e mares. Esses nutrientes estimulam enormes florações de algas que, ao morrerem e se decompor, consomem grandes quantidades de oxigênio.

O aumento da atividade microbiana provocado pelo aquecimento também acelera esse consumo, agravando ainda mais a situação.

A perda de oxigênio já é global

Segundo dados do programa europeu Copernicus, os oceanos perderam cerca de 2% do oxigênio dissolvido desde a década de 1950.

As projeções indicam que essa redução poderá chegar a entre 1% e 7% adicionais até o fim deste século, dependendo da evolução das emissões de gases de efeito estufa.

Embora esses números pareçam modestos, pequenas reduções são suficientes para comprometer organismos extremamente sensíveis e alterar o funcionamento de ecossistemas inteiros.

Quando os níveis de oxigênio caem demais, surgem as chamadas zonas mortas, áreas onde poucas espécies conseguem sobreviver.

Esses ambientes afetam cadeias alimentares, reduzem populações de peixes e alteram processos fundamentais dos ciclos naturais.

Cientistas querem criar um décimo Limite Planetário

Os pesquisadores argumentam que a desoxigenação aquática merece ser reconhecida como um novo Limite Planetário.

O conceito, apresentado originalmente em 2009, identifica nove processos fundamentais para manter a Terra em condições favoráveis à vida humana. Entre eles estão mudanças climáticas, perda da biodiversidade, acidificação dos oceanos, mudanças no uso da terra e alterações nos ciclos biogeoquímicos.

Segundo o novo estudo, a perda de oxigênio interage diretamente com praticamente todos esses processos.

Ela pode intensificar os efeitos das mudanças climáticas, agravar a perda de biodiversidade, modificar os ciclos do nitrogênio e do fósforo e influenciar até mesmo processos atmosféricos.

Para os autores, isso demonstra que a desoxigenação não deve ser tratada apenas como uma consequência ambiental, mas como um componente central da estabilidade do planeta.

Quatro indicadores podem monitorar a saúde dos ecossistemas aquáticos

Para incorporar esse novo limite ao modelo científico, os pesquisadores propõem quatro indicadores principais:

  • Concentração de oxigênio dissolvido e ocorrência de áreas com níveis extremamente baixos.
  • Distância entre a quantidade de oxigênio presente e a capacidade máxima que a água pode armazenar.
  • Alterações na abundância de plantas e animais sensíveis à redução de oxigênio.
  • Índice Metabólico, métrica que compara a demanda de oxigênio dos organismos com a quantidade realmente disponível no ambiente.

Segundo os cientistas, esses indicadores permitirão acompanhar a evolução do problema e estabelecer limites seguros para os ecossistemas aquáticos.

Um alerta para evitar mudanças irreversíveis

Os autores afirmam que a desoxigenação aquática está se aproximando de um nível considerado inseguro para o sistema terrestre.

Como o fenômeno interage com diversos processos ambientais ao mesmo tempo, seus efeitos podem persistir durante décadas ou até séculos, mesmo que parte das emissões seja reduzida.

Por isso, o estudo defende que reconhecer oficialmente a perda de oxigênio como um novo Limite Planetário pode ajudar governos e organizações internacionais a desenvolver políticas mais eficazes para proteger oceanos, rios e lagos.

Mais do que preservar a vida marinha, a medida busca proteger um dos componentes essenciais para o equilíbrio climático e ecológico da Terra, lembrando que a saúde dos ecossistemas aquáticos está diretamente ligada à estabilidade do planeta como um todo.

Partilhe este artigo

Artigos relacionados