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Ciência

China combina bactérias e luz solar para purificar água contaminada — e o resultado pode redefinir o tratamento de metais pesados

Pesquisadores chineses desenvolveram um sistema que usa bactérias e luz do Sol para remover urânio da água. A técnica combina processos naturais e nanotecnologia, alcançando alta eficiência. Ainda em fase experimental, o método pode abrir caminho para soluções mais sustentáveis em regiões afetadas por mineração.
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Tempo de leitura: 3 minutos

A contaminação da água por metais pesados é um problema silencioso, mas persistente. Em regiões ligadas à mineração ou à indústria, substâncias como o urânio podem permanecer por décadas no ambiente, dificultando a recuperação de aquíferos. Diante desse desafio, cientistas buscam alternativas menos agressivas e mais sustentáveis. Um novo estudo da China aponta para uma solução promissora: usar bactérias e luz solar como aliadas na purificação da água.

Um sistema biohíbrido que une biologia e nanotecnologia

Avatares Biológicos1
© NASA

O método foi desenvolvido por uma equipe liderada pelo pesquisador Wenkun Zhu, da Southwest University of Science and Technology, e publicado na revista científica Science Bulletin.

A proposta combina microrganismos com nanopartículas minerais em um sistema biohíbrido. No centro da tecnologia está a bactéria Shewanella putrefaciens, conhecida por sua capacidade de interagir com metais pesados.

Essas bactérias produzem naturalmente, em sua superfície, nanopartículas de sulfeto de ferro (FeS). Esse material forma uma espécie de “revestimento ativo”, criando uma estrutura que atua diretamente no processo de purificação.

Como o sistema transforma o urânio na água

O funcionamento depende da interação entre três elementos: bactérias, material mineral e luz solar.

Quando expostas à luz, as nanopartículas de sulfeto de ferro funcionam como fotocatalisadores. Isso significa que elas absorvem energia solar e liberam elétrons.

Esses elétrons iniciam uma reação química fundamental:

  • o urânio solúvel (mais móvel e perigoso) é reduzido
  • ele se transforma em uma forma menos solúvel
  • o metal passa a se depositar, em vez de circular na água

Na prática, isso impede que o contaminante continue se espalhando, facilitando sua remoção e reduzindo riscos ambientais.

Um ciclo contínuo alimentado pela luz do Sol

Um dos pontos mais interessantes do sistema é que ele não funciona como uma reação única que se esgota.

Parte dos elétrons gerados pelas nanopartículas é usada diretamente na transformação do metal. Outra parte é absorvida pelas bactérias, aumentando sua atividade metabólica.

Isso faz com que os microrganismos produzam ainda mais elétrons e regenerem o material mineral utilizado no processo.

O resultado é um ciclo contínuo, em que:

  • a luz solar fornece energia
  • o material mineral catalisa reações
  • as bactérias reforçam o sistema

Essa dinâmica permite que o processo se mantenha ativo por mais tempo, sem perda rápida de eficiência.

Resultados promissores em água contaminada real

Cientistas Laboratorio
© Svitlana Hulko via Shutterstock

Para testar a eficácia da tecnologia, os pesquisadores utilizaram água proveniente de áreas de mineração de urânio.

Os resultados foram significativos:

  • o sistema biohíbrido alcançou cerca de 94% de remoção do contaminante
  • o uso apenas das bactérias atingiu aproximadamente 48%

Além disso, testes com plantas indicaram menor toxicidade na água tratada com o novo método, sugerindo um impacto ambiental reduzido.

Uma alternativa mais sustentável para o futuro

Os cientistas acreditam que essa abordagem pode integrar uma nova geração de soluções para tratamento de água.

Entre as possíveis aplicações estão:

  • áreas de mineração com drenagem contaminada
  • sistemas de tratamento em zonas industriais
  • barreiras biológicas para proteção de aquíferos
  • wetlands artificiais para filtragem natural

Embora ainda esteja em fase de pesquisa, o método chama atenção por reduzir a necessidade de produtos químicos intensivos e aproveitar processos naturais.

Um passo importante, mas ainda inicial

Apesar dos resultados promissores, a tecnologia ainda precisa avançar antes de ser aplicada em larga escala.

Questões como custo, adaptação a diferentes ambientes e estabilidade a longo prazo ainda devem ser avaliadas.

Mesmo assim, o estudo mostra um caminho interessante: usar a própria natureza — combinada com engenharia de materiais — para enfrentar um dos problemas ambientais mais persistentes da atualidade.

Se evoluir como esperado, essa abordagem pode transformar a forma como lidamos com a poluição da água — tornando o processo mais eficiente, sustentável e alinhado com os próprios mecanismos do planeta.

 

[ Fonte: Frontline ]

 

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