A busca por vida fora da Terra sempre esteve ligada à presença de água. Durante décadas, cientistas acreditaram que existia um limite mínimo de umidade abaixo do qual organismos vivos simplesmente não poderiam sobreviver. Porém, novos experimentos com solos que simulam as condições de Marte indicam que alguns microrganismos podem resistir a níveis de aridez muito mais extremos do que se imaginava. O resultado amplia os horizontes da astrobiologia e pode influenciar diretamente futuras missões espaciais.
Experimentos mostram bactérias se multiplicando em “solo marciano”

A pesquisa foi conduzida por cientistas da Universidade de Aberdeen e do Centro de Astrobiología, liderados pelos pesquisadores Jyothi Basapathi Raghavendra, María-Paz Zorzano e Javier Martín-Torres.
O objetivo era responder a uma pergunta fundamental: organismos terrestres seriam capazes de sobreviver em condições semelhantes às encontradas no planeta vermelho?
Para testar essa hipótese, os pesquisadores utilizaram solos basálticos enriquecidos com sais e gesso que simulam o regolito marciano — o material que forma a superfície do planeta. Em seguida, introduziram bactérias originárias de ambientes desérticos da Terra, conhecidas por sua resistência à seca extrema.
A equipe monitorou o crescimento microbiano medindo a quantidade de DNA presente nas amostras ao longo do tempo. Surpreendentemente, os cientistas observaram que as bactérias não apenas sobreviveram, mas também se replicaram.
Vida ativa mesmo com níveis mínimos de água
Um dos aspectos mais importantes do estudo envolve o conceito de atividade de água, que mede quanta água livre está disponível para os organismos utilizarem.
Durante muito tempo, acreditava-se que microrganismos não poderiam se reproduzir quando a atividade de água estivesse abaixo de 0,585 — limite considerado essencial para processos biológicos.
No experimento, porém, os pesquisadores registraram replicação microbiana com atividade de água de apenas 0,34, um valor muito inferior ao considerado viável até agora.
Os cientistas também observaram que o crescimento foi maior em solos com mais umidade. Ainda assim, mesmo nas condições mais secas houve aumento detectável de DNA após cerca de um mês de incubação, indicando que as bactérias estavam metabolicamente ativas.
Análises microscópicas e moleculares confirmaram que esse aumento não era resultado de resíduos genéticos ou processos químicos. As células estavam realmente vivas e se reproduzindo.
Sais hidratados ajudam o solo a reter água
Outro fator importante nos experimentos foi o papel dos sais presentes no solo.
Os pesquisadores adicionaram cerca de 5% de sulfato de magnésio ao regolito simulado. Esse composto possui a capacidade de reter água, funcionando como um reservatório microscópico de umidade.
Com essa modificação, o solo passou a armazenar aproximadamente o dobro de água em comparação com o simulador padrão.
Mesmo assim, o crescimento bacteriano foi um pouco mais lento nesse cenário. A quantidade máxima de DNA registrada chegou a cerca de 3,2 nanogramas, enquanto em outros experimentos atingiu valores entre 5 e 6 nanogramas.
Impactos para a exploração espacial e a proteção planetária

Os resultados têm implicações importantes para futuras missões a Marte.
Atualmente, diretrizes internacionais definidas pelo COSPAR estabelecem limites de umidade para identificar regiões marcianas onde a vida poderia existir. Essas áreas são chamadas de “Regiões Especiais” e recebem protocolos rigorosos de proteção para evitar contaminação por organismos terrestres.
O novo estudo sugere que esses limites podem precisar de revisão.
Se alguns microrganismos conseguem se reproduzir com níveis de água muito menores do que o previsto, então áreas consideradas seguras podem, na verdade, ser habitáveis para vida microbiana.
Isso aumenta a preocupação com a chamada contaminação planetária, na qual microrganismos transportados por sondas ou equipamentos terrestres poderiam se estabelecer em Marte.
Os pesquisadores alertam, no entanto, que os experimentos ainda foram realizados sob condições atmosféricas da Terra. A pressão e a composição do ar em Marte — dominada por dióxido de carbono e extremamente rarefeita — são muito diferentes.
Novos testes serão necessários para verificar se os microrganismos manteriam essa capacidade em ambientes ainda mais próximos das condições reais do planeta.
Cultivar plantas fora da Terra ainda é um desafio
Enquanto os microrganismos demonstram grande capacidade de adaptação, o cultivo de plantas em solos extraterrestres continua sendo um desafio.
Em um estudo paralelo liderado pela pesquisadora Jessica Atkin, cientistas analisaram o crescimento do grão-de-bico (Cicer arietinum) em solo que simula o regolito lunar.
Nenhuma planta conseguiu produzir sementes sem a adição de compostos orgânicos e fungos simbióticos conhecidos como micorrizas. Quando esses elementos foram incorporados ao solo, algumas plantas conseguiram florescer e gerar sementes, embora com produtividade inferior à de solos agrícolas normais.
Mesmo assim, todas as plantas apresentaram sinais de estresse, como folhas amareladas e crescimento limitado.
Um novo limite para a resistência da vida
Os dois estudos indicam que a vida pode ser muito mais resistente do que se imaginava.
A capacidade de microrganismos se multiplicarem em solo semelhante ao de Marte — mesmo em condições de extrema aridez e sem fontes externas de carbono — sugere que ambientes considerados inabitáveis podem, na verdade, abrigar processos biológicos.
Para a astrobiologia, isso significa que o universo pode oferecer muito mais oportunidades para a vida do que se pensava.
E para os cientistas que planejam futuras missões a Marte, surge um novo desafio: explorar o planeta vermelho sem levar para lá, inadvertidamente, os primeiros colonizadores microscópicos da Terra.
[ Fonte: Infobae ]