O concreto é a espinha dorsal da civilização moderna: compõe nossas casas, pontes e cidades. No entanto, essa ubiquidade tem um custo ambiental altíssimo. A produção de cimento, seu principal componente, responde por cerca de 8% das emissões globais de gases de efeito estufa. Reduzir essa pegada de carbono é um dos grandes desafios da engenharia do século XXI — e uma equipe da Universidade da Pensilvânia acredita ter encontrado um caminho promissor.
O nascimento do projeto Diamanti

Batizado de Diamanti, o projeto alia design inspirado na natureza e impressão 3D de alta precisão. Liderado pelo professor Masoud Akbarzadeh, o grupo desenvolveu uma mistura de concreto sustentável e uma estrutura em treliça leve, mas incrivelmente resistente. Segundo os pesquisadores, o material absorve 142% mais dióxido de carbono do que o concreto convencional, graças à sua composição e ao formato poroso das peças.
O primeiro protótipo, uma ponte para pedestres, consome 60% menos material sem perder resistência. A inspiração veio dos ossos humanos: estruturas ocadas e porosas que distribuem o peso com máxima eficiência. “A natureza nos ensina que não é preciso material em todo lugar”, diz Akbarzadeh. O padrão usado, chamado de TPMS (estruturas de superfície mínima triplamente periódica), aumenta a área de contato do concreto com o ar, otimizando a absorção de CO₂.
Um concreto que respira
A mistura foi desenvolvida pela cientista Shu Yang, também da Universidade da Pensilvânia. Ela substituiu parte do cimento tradicional por terra diatomácea, um material natural feito de algas fossilizadas, poroso e rico em sílica. Esses microcanais permitem que o dióxido de carbono penetre mais fundo na estrutura, reagindo com compostos minerais e “aprisionando” o carbono de forma permanente.
De acordo com o engenheiro Du Hongjian, da Universidade Nacional de Singapura, que analisou o projeto, a inovação combina dois avanços complementares: mais superfície de contato e um material com alta afinidade química pelo CO₂. “Mesmo sem alterar a mistura, o aumento da área superficial já amplia a absorção; juntos, os efeitos se multiplicam”, explica.
Impressão 3D e eficiência estrutural
A ponte do projeto Diamanti é modular: cada peça é impressa por um braço robótico e unida com cabos tensionados. Esse processo reduz o tempo de construção, o uso de energia e o desperdício de material em até 25%, além de diminuir em 80% o consumo de aço, outro material altamente emissor.
Os testes de carga realizados com o protótipo — exibido na Bienal de Arquitetura de Veneza 2025 — superaram todas as expectativas. Agora, a equipe se prepara para erguer sua primeira ponte em escala real na França, com apoio da empresa química Sika, da Suíça, e do Departamento de Energia dos EUA.
Um desafio global para o cimento
O setor de cimento e concreto conseguiu reduzir suas emissões em 25% por tonelada desde 1990, mas o crescimento da demanda anulou parte desses avanços. Estima-se que 90% das emissões do concreto venham do cimento, produzido ao aquecer calcário a mais de 2.000 °C — um processo que libera grandes quantidades de CO₂.
Empresas como a japonesa CO₂-SUICOM e a britânica Seratech também vêm testando misturas “carbono negativas”, mas o desafio é escalar essas soluções. A produção global de terra diatomácea, por exemplo, é de apenas 2,6 milhões de toneladas anuais — ínfima frente às bilhões de toneladas de concreto usadas no mundo.
Mesmo assim, especialistas como Andrew Minson, da Associação Global de Cimento e Concreto, veem o Diamanti como um avanço crucial. “Não há solução mágica. Precisamos de múltiplas inovações — e essa é uma das mais promissoras”, diz.
O futuro das construções sustentáveis
A equipe de Akbarzadeh já trabalha em novas aplicações: pisos pré-fabricados, colunas estruturais e elementos arquitetônicos otimizados para absorver carbono. A ambição é criar um ecossistema de construções que, em vez de apenas emitir, ajudem a retirar CO₂ da atmosfera.
“Queremos provar que é possível construir de forma mais leve, eficiente e responsável”, resume Akbarzadeh. “O Diamanti não é apenas um material — é um novo modo de pensar o concreto.”
[ Fonte: CNN Brasil ]