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Tecnologia

Milhões de trabalhadores podem perder espaço para a IA — mas a maioria ainda tem boas chances de se adaptar, aponta estudo

Um estudo do Brookings Institution analisou quais profissionais estão mais expostos à automação por inteligência artificial. A pesquisa indica que milhões de trabalhadores podem se adaptar a novas funções, mas cerca de 6 milhões enfrentam maior risco de dificuldades caso seus empregos sejam substituídos.
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Tempo de leitura: 4 minutos

 A inteligência artificial vem transformando rapidamente o mundo do trabalho, levantando dúvidas sobre quais profissões podem desaparecer e quais conseguirão se adaptar à nova realidade tecnológica. Um estudo recente conduzido por pesquisadores do Brookings Institution, em colaboração com o National Bureau of Economic Research, tenta responder a essa questão ao analisar quais trabalhadores estão mais expostos à IA e quais têm maior capacidade de adaptação no mercado.

Como os pesquisadores avaliaram o risco da inteligência artificial

O estudo analisou cerca de 37,1 milhões de trabalhadores nos Estados Unidos que atuam em profissões consideradas altamente expostas à inteligência artificial.

Para medir o risco real, os pesquisadores avaliaram dois fatores principais. O primeiro foi o grau de exposição à IA, ou seja, o quanto as tarefas desses empregos poderiam ser realizadas por sistemas de inteligência artificial. O segundo foi a chamada capacidade adaptativa, que indica a probabilidade de um trabalhador conseguir migrar para outra função caso seu emprego seja automatizado.

Para calcular essa capacidade, o estudo considerou elementos como idade, habilidades profissionais, nível educacional, força do mercado de trabalho local e até fatores institucionais, como a presença de sindicatos.

A maioria dos trabalhadores pode se reinventar

Apesar das preocupações sobre o impacto da IA, os resultados trazem um dado relativamente otimista.

Dos 37,1 milhões de trabalhadores em ocupações altamente expostas à automação, cerca de 26,5 milhões apresentam capacidade de adaptação acima da média. Isso significa que, caso suas funções sejam substituídas ou transformadas pela tecnologia, esses profissionais provavelmente conseguirão encontrar novas oportunidades de trabalho.

Segundo os pesquisadores, isso ocorre porque muitas dessas pessoas possuem habilidades transferíveis ou atuam em setores que tendem a gerar novas funções à medida que a tecnologia avança.

Um grupo menor pode enfrentar mais dificuldades

Nem todos os trabalhadores, porém, estão na mesma posição.

O estudo identifica aproximadamente 6,1 milhões de profissionais que apresentam simultaneamente alta exposição à inteligência artificial e baixa capacidade de adaptação.

Grande parte dessas ocupações está concentrada em funções administrativas e clericais. Um dado que chamou a atenção dos pesquisadores é que cerca de 86% dos trabalhadores nesses cargos são mulheres.

Esses empregos costumam envolver tarefas repetitivas e processamento de informação, atividades que podem ser automatizadas com relativa facilidade por sistemas de IA.

Onde a adaptação pode ser mais difícil

O estudo também aponta diferenças regionais no impacto potencial da automação.

Trabalhadores que vivem em cidades universitárias ou centros urbanos de porte médio nas regiões do Mountain West e do Midwest, nos Estados Unidos, podem enfrentar maiores dificuldades para encontrar novas oportunidades caso seus empregos desapareçam.

Isso ocorre porque esses mercados de trabalho locais tendem a oferecer menos alternativas profissionais em comparação com grandes centros econômicos.

Profissões com alta exposição, mas boa capacidade de adaptação

Curiosamente, algumas profissões altamente expostas à inteligência artificial também apresentam boas perspectivas de adaptação.

Entre elas estão profissionais de desenvolvimento web, marketing digital e tecnologia da informação. Embora a IA possa automatizar parte das tarefas desses setores, os trabalhadores geralmente possuem habilidades técnicas que facilitam a transição para novas funções.

Além disso, esses profissionais costumam atuar em grandes cidades ou polos tecnológicos, onde o mercado de trabalho oferece mais oportunidades de requalificação e mobilidade.

Demissões em tecnologia e a aposta das empresas em IA

O estudo surge em um momento em que empresas de tecnologia estão investindo bilhões de dólares em inteligência artificial e reestruturando suas equipes.

Nos últimos meses, companhias como Amazon, Vimeo, Pinterest e Block anunciaram demissões de milhares de funcionários enquanto ampliam seus investimentos em automação e sistemas baseados em IA.

No caso da empresa Block, o CEO Jack Dorsey chegou a afirmar que a companhia está apostando que a inteligência artificial poderá substituir uma parte significativa da força de trabalho.

O impacto econômico ainda é incerto

Apesar da velocidade dos investimentos em IA, o impacto econômico da tecnologia ainda é difícil de medir.

Segundo um relatório recente do banco Goldman Sachs, os investimentos em inteligência artificial tiveram praticamente nenhum impacto direto no crescimento do PIB dos Estados Unidos em 2025.

O Federal Reserve Bank de Dallas também afirmou que não espera uma substituição massiva de empregos por IA na próxima década.

Além disso, diversas pesquisas com executivos indicam que muitas empresas ainda não observaram ganhos significativos de produtividade decorrentes do uso dessas tecnologias.

Um alerta para políticas públicas

Para os autores do estudo, o objetivo principal da pesquisa é ajudar governos e formuladores de políticas públicas a identificar os trabalhadores mais vulneráveis.

Ao direcionar programas de qualificação profissional e apoio à transição de carreira para esses grupos específicos, seria possível reduzir os impactos negativos da automação no mercado de trabalho.

Mesmo que a inteligência artificial transforme muitas profissões, a velocidade e a forma dessa mudança ainda dependerão de decisões econômicas, políticas e sociais que estão sendo tomadas agora.

 

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