Uma descoberta por acaso em um jardim islandês

A Islândia sempre foi conhecida por seu clima rigoroso e por ser um dos raros lugares do mundo sem mosquitos nativos. Isso mudou recentemente, quando o entusiasta dos insetos Bjorn Hjaltason encontrou três exemplares em seu jardim, próximo à capital, Reiquiavique.
Hjaltason usava uma técnica chamada “corda de vinho” — uma fita embebida em vinho tinto açucarado — para atrair mariposas. Mas, em vez disso, acabou atraindo algo inesperado. Ao observar um inseto incomum, enviou uma foto ao entomólogo Matthias Alfredsson, do Instituto de Ciências Naturais da Islândia, que confirmou o inédito: três mosquitos silvestres, dois fêmeas e um macho, capturados pela primeira vez em território islandês.
“É a primeira vez que se encontra um mosquito na natureza selvagem da Islândia”, confirmou Alfredsson em comunicado oficial.
Uma nova realidade climática?
Os pesquisadores agora tentam entender se esses mosquitos são apenas visitantes ocasionais ou o início de uma população permanente. “Com o aquecimento global e o aumento das viagens internacionais, não deveria nos surpreender que mosquitos comecem a aparecer em lugares muito estranhos”, afirmou Bart Knols, especialista holandês e fundador da plataforma científica MalariaWorld.
De fato, a Islândia vem passando por mudanças profundas. Nas últimas décadas, o país perdeu geleiras inteiras, como a famosa Okjökull, e registrou um aumento notável na presença de insetos.
Segundo o professor emérito Gísli Már Gíslason, da Universidade da Islândia, “o número de insetos aumenta conforme a temperatura sobe — e isso abre caminho para espécies de regiões mais quentes colonizarem o país”.
Globalização e aquecimento: uma combinação perigosa
Além do clima, o turismo internacional tem sido um fator decisivo. O fluxo de aviões, cruzeiros e cargueiros facilita o transporte acidental de pequenos insetos entre continentes. “Com o número crescente de visitantes, há mais oportunidades para que espécies estrangeiras viajem e sobrevivam aqui”, explica Gíslason.
Foi ele quem capturou, nos anos 1980, o primeiro mosquito isolado do país — um espécime que chegou em um avião vindo da Groenlândia e nunca originou descendentes. Desta vez, porém, os cientistas temem que a história seja diferente.
Uma espécie resistente ao frio extremo

Os mosquitos encontrados foram identificados como Culiseta annulata, uma espécie comum em outras partes do norte da Europa. Diferente da maioria dos mosquitos, ela é capaz de suportar temperaturas abaixo de zero por longos períodos, o que aumenta a chance de sobrevivência na Islândia.
Segundo Alfredsson, o país mantém uma vigilância rigorosa sobre insetos e espécies invasoras — o que torna improvável que uma população anterior tenha passado despercebida. Ainda assim, o aparecimento desses três exemplares sugere que o aquecimento global já criou condições mínimas para sua presença.
“Se essa população se estabelecer, pode se espalhar tão rapidamente quanto os jejenes (mosquitinhos picadores) que chegaram há uma década e hoje estão em todo o país”, alertou Gíslason.
Um alerta para o futuro do Ártico
Por enquanto, os três mosquitos estão guardados — literalmente — no congelador de Alfredsson, à espera de novos estudos. Mas a descoberta, embora pequena, simboliza algo muito maior: a transformação acelerada das regiões frias do planeta.
O que antes era impensável — mosquitos sobrevivendo no Ártico — agora é realidade. E, segundo os especialistas, é apenas o começo.
[ Fonte: TN ]