Durante anos, fabricantes competiram por telas maiores, câmeras melhores e processadores mais rápidos. Mas no Mobile World Congress 2026, realizado em Barcelona, ficou claro que a indústria entrou em uma nova fase. O valor de um dispositivo não está mais apenas nas especificações técnicas, e sim na inteligência que ele incorpora. Smartphones, laptops e wearables estão deixando de ser objetos passivos para se tornarem sistemas capazes de entender contexto, prever necessidades e agir de forma proativa.
A nova era da tecnologia: dispositivos que pensam junto com você

Uma das principais mensagens do MWC 2026 foi que a indústria está entrando na chamada “era do QI dos dispositivos”. Em vez de simplesmente responder a comandos, os aparelhos começam a antecipar o que o usuário pretende fazer.
Esse conceito foi descrito por várias empresas como “agency”, ou seja, tecnologia com capacidade de agir de maneira autônoma em certas tarefas.
Para companhias como AMD, HP e Lenovo, o objetivo já não é apenas melhorar especificações de hardware. A aposta agora é criar dispositivos capazes de interpretar contexto e ajudar o usuário antes mesmo de ele pedir.
Essa mudança representa uma ruptura importante com o modelo tradicional de smartphones e computadores.
Durante anos, aplicativos funcionaram como ambientes isolados: um app para e-mail, outro para documentos, outro para pesquisa. Agora, a ideia é que a inteligência artificial conecte todas essas atividades de maneira invisível.
Lenovo Qira e a tentativa de eliminar os aplicativos isolados

Um dos anúncios mais comentados do evento foi o Lenovo Qira, um sistema de inteligência artificial integrado ao nível do sistema operacional.
Diferente de assistentes tradicionais, Qira foi projetado para funcionar em todo o ecossistema de dispositivos da Lenovo e da Motorola.
A proposta é simples: eliminar a fragmentação entre dispositivos.
Imagine alguém pesquisando um projeto em um smartphone durante um voo. Ao abrir o laptop mais tarde, o sistema já pode exibir automaticamente as abas relevantes, organizar notas e até sugerir um resumo do conteúdo.
Tudo isso acontece sem a necessidade de abrir um aplicativo específico.
A inteligência funciona de maneira contextual e pode ser ativada por comandos simples como “Hey Qira” ou por uma tecla dedicada no teclado.
A estratégia tenta criar uma integração tão profunda entre dispositivos que transforme diferentes gadgets em um único sistema conectado.
AMD aposta em inteligência artificial local e mais privacidade
Outra tendência forte apresentada no evento foi a migração da inteligência artificial da nuvem para o próprio dispositivo.
A AMD apresentou a série Ryzen AI 400, que traz unidades de processamento neural capazes de executar modelos de IA diretamente no computador.
Essa abordagem responde a uma preocupação crescente no ambiente corporativo: privacidade de dados.
Quando sistemas de IA funcionam na nuvem, grandes quantidades de informações sensíveis podem ser transmitidas para servidores externos.
Ao executar essas tarefas localmente, empresas conseguem manter dados dentro do próprio dispositivo.
Isso permite que softwares baseados em modelos de linguagem avancem em tarefas como análise de documentos, organização de projetos e geração de conteúdo sem expor informações estratégicas.
Redes inteligentes e infraestrutura preparada para IA
Além de dispositivos pessoais, o MWC 2026 também destacou mudanças profundas na infraestrutura digital.
Após sua fusão, HPE e Juniper apresentaram uma nova geração de equipamentos de rede projetados para lidar com cargas de trabalho intensivas em inteligência artificial.
Esses sistemas utilizam algoritmos capazes de detectar congestionamentos de rede e redirecionar tráfego automaticamente antes que ocorram problemas de latência.
Em outras palavras, a própria internet começa a se tornar mais inteligente.
Essa evolução é importante porque aplicações baseadas em IA exigem enormes quantidades de processamento e transferência de dados.
Redes tradicionais não foram projetadas para lidar com esse tipo de demanda.
Dispositivos experimentais mostram para onde a indústria pode ir
Entre os protótipos mais curiosos apresentados no evento estava o ThinkBook Modular AI PC, da Lenovo.
O laptop possui um sistema modular que permite substituir o teclado por uma segunda tela, transformando o dispositivo em uma estação de trabalho de dois monitores.
A ideia é permitir que o computador se adapte às necessidades do usuário em diferentes situações.
Outro destaque foi o Honor Robot Phone, um smartphone com câmera montada em um pequeno sistema mecânico motorizado.
Esse mecanismo permite que a câmera acompanhe o usuário automaticamente durante gravações e até realize gestos físicos, como inclinar-se para responder interações.
Embora ainda pareça experimental, o conceito aponta para um futuro em que dispositivos terão movimentos físicos e sensores avançados, aproximando-se de sistemas robóticos.
Câmeras, dobráveis e inteligência vestível
Outros lançamentos reforçaram tendências que já vinham ganhando força nos últimos anos.
A Xiaomi apresentou o Xiaomi 17 Ultra, com sensor fotográfico de uma polegada e lente periscópica de 200 megapixels, aproximando smartphones da qualidade de câmeras profissionais.
Já a Motorola revelou o Razr Fold, um dobrável de grande formato com tela interna de 8,1 polegadas e bateria de alta capacidade.
No campo dos wearables, a Qualcomm anunciou a plataforma Snapdragon Wear Elite, que integra unidades de processamento neural diretamente em relógios inteligentes.
Isso permite que dispositivos de pulso processem dados de saúde e comportamento localmente, oferecendo sugestões personalizadas sem depender constantemente da nuvem.
O fim da guerra de hardware
Se houve uma conclusão clara no MWC 2026, foi a de que a competição baseada apenas em hardware está perdendo importância.
Durante anos, a disputa entre fabricantes se concentrou em quem oferecia a melhor câmera, a tela mais nítida ou o processador mais rápido.
Agora, a batalha mudou de foco.
A nova disputa é sobre qual inteligência artificial é mais útil, mais proativa e mais integrada ao cotidiano do usuário.
Em vez de carregar apenas ferramentas digitais, os consumidores começam a carregar dispositivos capazes de atuar como parceiros inteligentes.
[Fonte: Technewsworld]