O programa Artemis é a grande aposta da NASA para levar astronautas de volta à Lua e preparar futuras missões tripuladas para Marte. Mas a arquitetura desse ambicioso plano continua passando por mudanças. A mais recente envolve um golpe significativo para a Boeing, uma das principais contratadas do projeto. A agência espacial decidiu abandonar um dos componentes que a empresa estava desenvolvendo para o foguete lunar SLS, após anos de atrasos e custos acima do previsto.
Um contrato bilionário em revisão
Em 2022, a NASA concedeu à Boeing um contrato de aproximadamente 3,2 bilhões de dólares para produzir partes fundamentais do foguete Space Launch System (SLS), o veículo responsável por lançar as missões do programa Artemis.
O acordo incluía a produção dos estágios centrais para as missões Artemis 3 e 4, a aquisição de materiais críticos para as missões Artemis 5 e 6 e o desenvolvimento de um novo estágio superior chamado Exploration Upper Stage (EUS).
Esse estágio superior seria uma evolução importante do foguete SLS. Equipado com tanques de combustível maiores e quatro motores RL10, o sistema permitiria enviar cargas mais pesadas e apoiar missões mais complexas rumo à Lua.
Atrasos e custos crescentes
O problema é que o desenvolvimento do EUS acumulou atrasos significativos e custos muito acima das previsões iniciais.
Um relatório publicado em 2024 pelo Office of Inspector General da NASA apontou que o custo total do sistema SLS Block 1B — versão do foguete que utilizaria o EUS — poderia chegar a 5,7 bilhões de dólares antes do primeiro lançamento previsto para 2028.
Esse valor representaria cerca de 700 milhões de dólares acima do orçamento planejado.
Grande parte desse aumento vinha justamente do desenvolvimento do EUS. O projeto, que inicialmente deveria custar cerca de 982 milhões de dólares em 2017, passou a ter uma estimativa de aproximadamente 2,8 bilhões de dólares até 2028.
Além disso, a conclusão do estágio superior foi adiada diversas vezes. A previsão original apontava para 2021, mas o cronograma acabou sendo empurrado para 2027.
Esses atrasos ameaçavam impactar diretamente o calendário das futuras missões Artemis.
NASA muda estratégia para o foguete lunar
Diante desse cenário, a NASA decidiu reformular parte da arquitetura do programa Artemis.
A agência optou por cancelar a versão atualizada do foguete, chamada SLS Block 1B, e continuar utilizando a configuração atual do SLS para acelerar o ritmo de lançamentos.
Com essa decisão, o Exploration Upper Stage desenvolvido pela Boeing deixou de ser necessário.
Segundo informações divulgadas por veículos internacionais, a NASA estaria avaliando utilizar uma alternativa baseada no estágio superior do foguete Vulcan Centaur, desenvolvido pela United Launch Alliance (ULA), uma joint venture formada por Boeing e Lockheed Martin.
Nesse cenário, a porção superior do foguete, chamada Centaur V, poderia ser adaptada para futuras missões Artemis.
Impacto financeiro e estratégico para a Boeing
Embora a Boeing tenha participação na United Launch Alliance, uma eventual escolha da ULA reduziria significativamente a participação direta da empresa no programa.
Isso significa que a Boeing teria que dividir receitas e protagonismo com a Lockheed Martin.
O momento da mudança também é delicado para a companhia. Nos últimos anos, a relação entre a Boeing e a NASA tem enfrentado dificuldades.
Um dos episódios mais marcantes foi o incidente envolvendo a nave Starliner, que deixou dois astronautas da NASA presos na Estação Espacial Internacional por nove meses após problemas técnicos.
Investigações posteriores apontaram falhas nos processos de teste e verificação do veículo, aumentando a pressão sobre a empresa.
Confiança em reconstrução
Apesar das dificuldades, a NASA afirma que continua comprometida em trabalhar com a Boeing para corrigir os problemas do programa Starliner.
No entanto, a decisão de abandonar o Exploration Upper Stage evidencia que os desafios da empresa vão além do transporte de astronautas.
Para muitos analistas do setor espacial, a Boeing agora enfrenta um desafio estratégico importante: recuperar a confiança da NASA e demonstrar que ainda pode ser um parceiro confiável em projetos espaciais de grande escala.
Com o programa Artemis avançando e novas empresas entrando no mercado espacial, a concorrência por contratos e protagonismo nas missões lunares tende a se intensificar nos próximos anos.