A segunda missão de teste do New Glenn marcou um divisor de águas para a Blue Origin. Com um pouso limpo no Atlântico e o envio bem-sucedido de duas sondas da NASA para Marte, o foguete ergueu seu status de promessa a realidade. Agora, a empresa de Jeff Bezos se prepara para a etapa mais complexa: transformar esse desempenho pontual em confiabilidade operacional, ampliando sua presença no disputado mercado de lançamentos pesados.
Como o voo de teste consolidou o New Glenn
Na quinta-feira, o New Glenn decolou da Estação da Força Espacial de Cabo Canaveral por volta das 15h55 (horário de Brasília). O lançamento se desenrolou com precisão: subida estável, separação de estágios sem incidentes e ejeção das carenagens como planejado. Logo depois, o primeiro estágio iniciou sua manobra de retorno e pousou intacto em uma balsa no Atlântico — um feito inédito para a Blue Origin.
Às 16h30, o foguete completou sua maior entrega até agora: duas sondas da missão ESCAPADE, da Universidade da Califórnia em Berkeley, desenvolvidas com apoio da NASA. As naves iniciarão uma viagem de cerca de 11 meses até Marte, onde estudarão a interação entre o vento solar e a atmosfera superior do planeta.
O desempenho sólido coloca o New Glenn entre os principais candidatos à certificação NSSL (National Security Space Launch), que permite transportar cargas sensíveis para o governo dos Estados Unidos. A Força Espacial está nas etapas finais de avaliação, e a Blue Origin já possui um contrato NSSL Fase 3 que prevê cerca de sete missões a partir do ano fiscal de 2026.
O próximo grande passo: pousar na Lua
A Blue Origin agora desloca sua atenção para a Lua. Em janeiro de 2026 — ou até antes, segundo a executiva Jacqueline Cortese — o New Glenn deverá lançar o protótipo do módulo lunar Blue Moon Mark 1 (MK1) na missão Pathfinder.
O MK1 é um pousador de carga capaz de levar até 3 toneladas à superfície lunar. Ele é parte fundamental do caminho até o MK2, módulo tripulado contratado pela NASA para a missão Artemis 5.
A trajetória será complexa: primeiro, o foguete colocará o MK1 em órbita baixa da Terra. Após algumas voltas, o módulo realizará uma manobra que o levará a uma órbita mais alongada. Depois de outra volta, ajustará sua rota rumo à Lua, onde deverá pousar após cerca de uma semana.
O MK1 transportará o experimento SCALPSS, um conjunto de câmeras da NASA projetado para registrar a pluma de poeira levantada pelo pouso. Esses dados serão cruciais para aprimorar futuras alunissagens e compreender como a superfície lunar reage às descidas de módulos cada vez maiores.
Os resultados serão aplicados diretamente no MK2, que deve voar em 2027 — também a bordo do New Glenn.
Testando sua capacidade de lançar e manobrar satélites
O calendário de 2026 inclui ainda duas missões que vão medir a precisão e a versatilidade do New Glenn no mercado de satélites — um dos mais lucrativos do setor espacial.
Uma delas será a Elytra Mission 1, da Firefly Aerospace. O objetivo é demonstrar as capacidades da nave Elytra, projetada para transportar, reposicionar e manobrar pequenos satélites em órbita. A missão também testará o dispensador FNTM-RiDE, da Xtenti.
No segundo semestre de 2026, o New Glenn deve lançar o primeiro lote de satélites da constelação Amazon Leo — novo nome do antigo Projeto Kuiper. A iniciativa é a resposta de Jeff Bezos ao Starlink, de Elon Musk, disputando o mercado de internet global de alta velocidade via satélite. A meta é expandir a constelação para além dos mais de 3.000 satélites já planejados.
Um 2026 decisivo para a Blue Origin
Após o sucesso do segundo voo de teste, as expectativas para o New Glenn estão mais altas do que nunca. A combinação de missões lunares, lançamentos governamentais e implantação de satélites comerciais vai exigir regularidade, pontualidade e baixo índice de falhas — atributos que definem os verdadeiros pesos-pesados do setor.
Se repetir o desempenho impecável que exibiu no último lançamento, o New Glenn pode finalmente consolidar a Blue Origin como uma concorrente direta da SpaceX no segmento de foguetes de grande porte. O próximo ano dirá se o megaprojeto de Jeff Bezos está pronto para entregar tudo o que promete.