Nas alturas de La Paz, Bolívia, onde a fé encontra o perigo, os xamãs aymaras, conhecidos como yatiris, desafiam as condições do terreno para preservar uma tradição espiritual profunda. Apesar das ameaças crescentes e dos alertas das autoridades, eles se mantêm fiéis às suas crenças e ao legado de seus ancestrais.
Tradição e fé em terrenos instáveis
Os yatiris realizam seus rituais espirituais em cabanas precárias localizadas em um solo que sofre com a erosão. Essas áreas são consideradas sagradas pelos aymaras desde tempos pré-hispânicos. Para os ancestrais, as caravanas de lhamas que chegavam à cidade realizavam cerimônias nesses picos para garantir proteção e sucesso em suas jornadas comerciais.
Embora estudos geológicos alertem sobre a instabilidade do terreno, os yatiris se guiam pelas mensagens da folha de coca e pela Pachamama, confiando que a terra é firme e segura. “Este solo não vai ceder”, afirma Tiburcio Condori, um guia espiritual com mais de 20 anos de experiência.
Práticas que resistem ao tempo
Os yatiris oferecem serviços como leituras de folhas de coca, limpezas energéticas e oferendas para atrair saúde e prosperidade. Essas práticas misturam elementos ancestrais com demandas contemporâneas, atraindo clientes de toda a região.
Para Margarita, uma comerciante local, essas práticas são indispensáveis: “Tenho fé nas folhas de coca e nas limpezas. Elas me ajudam a prosperar no meu negócio.” Esse tipo de crença reflete o vínculo espiritual profundo que muitos bolivianos mantêm com suas tradições, mesmo enfrentando os perigos do local.
Advertências ignoradas pelas autoridades locais
O terreno onde os yatiris trabalham tem sido alvo de preocupação por parte das autoridades de El Alto. A área é composta por solo arenoso e argiloso, enfraquecido por chuvas intensas, tráfego pesado e erosão constante.
Apesar disso, os yatiris e comerciantes locais rejeitam essas advertências, alegando que elas são fruto de interesses externos ou até “propaganda enganosa”. Mais de cem guias espirituais permanecem na região, cobrando valores que variam de dois dólares por leituras de coca a quinze dólares por limpezas energéticas.
O abismo como símbolo de resistência
Para os yatiris, aquele lugar vai além de um espaço de trabalho: é uma conexão direta com os deuses andinos. Segundo a tradição, os guias espirituais precisam ter nascido sob circunstâncias especiais, como sobreviver à queda de um raio, o que lhes confere seus poderes únicos.
“Os deuses nos protegem. Não há o que temer”, garante Condori, que não pretende abandonar o local. Sua permanência reflete não apenas fé, mas também a luta para preservar práticas espirituais que resistiram ao passar dos séculos.
Espiritualidade como força cultural
Mesmo diante das ameaças da natureza e do impacto das mudanças climáticas, os yatiris bolivianos continuam firmes em suas crenças. Sua conexão com a Pachamama e os deuses andinos é um testemunho da força cultural do povo aymara.
No limite entre a tradição e o abismo, esses guias espirituais mostram que a fé pode ser tão resistente quanto as montanhas que cercam La Paz. Eles são um exemplo vivo de como a espiritualidade permanece central na identidade cultural andina.