“Não me dá a vida.” A frase virou justificativa padrão para cancelar encontros, adiar planos e explicar um esgotamento que parece não ter fim. A sensação de estar sempre atrasado, devendo algo a alguém ou a si mesmo, alimenta um cansaço crônico que atravessa gerações — especialmente entre mulheres. Esse fenômeno é o ponto de partida do livro Estado civil: cansada, da jornalista Ana Morales, que propõe uma reflexão incômoda: o descanso virou uma ambição quase inalcançável.
Segundo Morales, vivemos em um estado permanente de alerta. A hiperconectividade, a pressão por desempenho e a dificuldade de desconectar criaram um cenário em que o cérebro nunca descansa. Pensamentos ruminativos, ansiedade constante e sensação de insuficiência acompanham a rotina do despertar ao adormecer. Não se trata de preguiça, ela afirma, mas de sobrevivência.
O mito do “dar conta de tudo”
Durante décadas, especialmente para as mulheres, assumir múltiplos papéis foi vendido como conquista. Trabalhar, cuidar da casa, manter relações, estar disponível emocionalmente — tudo ao mesmo tempo. O discurso do “podemos com tudo” teve um papel histórico importante, mas também gerou uma armadilha: a ausência de limites.
A filósofa e divulgadora Nerea Blanco, fundadora do projeto Somos Filosofers, aponta que a cultura popular reforçou a ideia de que felicidade e sucesso estão diretamente ligados ao trabalho. Criou-se uma equação perigosa: esforço infinito igual a recompensa garantida. O problema é que essa promessa, associada à meritocracia, envelheceu mal. Muitas pessoas se esforçam ao máximo e, ainda assim, não alcançam estabilidade nem bem-estar.
Quando o medo de não chegar a lugar algum já não empurra, entra em cena o FOMO — o medo de ficar de fora. A vida passa a ser vivida em ritmo acelerado, impulsionada por redes sociais que transformam até o descanso em performance.
Quando o corpo cobra a conta

Ignorar os sinais tem consequências. A psicóloga Bárbara Tovar alerta que, quando não ouvimos o corpo, ele acaba gritando. Tristeza persistente, irritabilidade, apatia, insônia, dores musculares, problemas digestivos e bloqueios criativos são sintomas cada vez mais comuns.
No caso das mulheres, o esgotamento tem raízes estruturais. Há séculos de expectativas que associam valor feminino à entrega, ao cuidado com os outros e ao sacrifício. Descansar, nesse contexto, ativa um sentimento quase automático de culpa. Se não estou produzindo, resolvendo ou cuidando, qual é o meu valor?
Essa culpa transforma o descanso em algo que parece derrota. E ainda confunde dois conceitos distintos: desconectar e descansar. Desligar o celular ou sair do trabalho não garante repouso real se a exigência interna continua ativa.
Descansar não é colapsar
Descansar não é simplesmente cair no sofá ao fim do dia. É reduzir a velocidade, permitir o silêncio e baixar o nível de autoexigência. É abrir espaço mental. Em um ambiente que celebra a aceleração, isso se torna um gesto quase contracultural.
Por isso, cada vez mais especialistas falam do descanso como ato político. Parar é se posicionar contra um sistema que valoriza a exaustão como medalha de honra. Para Nerea Blanco, descansar é uma forma de rebeldia diante da autoexploração normalizada.
Ana Morales reforça que reivindicar o descanso exige coragem. O contexto social, econômico e laboral não facilita essa escolha. Ainda assim, muitas vezes o peso maior vem de dentro: diálogos internos severos, medo de dizer não e dificuldade de renunciar a expectativas alheias.
Gerações que estão dizendo basta

Millennials e geração Z estão na linha de frente dessa mudança. Os primeiros cresceram acreditando em uma promessa de estabilidade que não se concretizou. Os mais jovens chegaram a um sistema já rachado — e não estão dispostos a repetir o mesmo caminho.
Para a geração Z, estabelecer limites não é fracasso, é projeto de vida. Descansar faz parte do desenho de futuro que desejam construir.
Menos multitarefa, mais presença
Outra mudança em curso é a valorização de fazer uma coisa de cada vez. Cozinhar enquanto se cozinha. Caminhar por caminhar. Trabalhar com foco real. Estudos citados por Morales mostram que mulheres reservam muito menos tempo diário para atividades prazerosas do que homens, reflexo de uma divisão desigual das tarefas não remuneradas.
Ainda assim, há margem para mudança. Fazer menos, mas fazer com presença. A ideia de que plenitude está no ritmo, e não no ruído, ganha força.
No fim das contas, o verdadeiro luxo passou a ser o tempo. E talvez a maior revolução contemporânea seja redefinir o descanso não como perda, mas como recuperação. Descansar deixa de ser desistir — e passa a ser um ato de respeito próprio.
[ Fonte: El País ]