O Dia de Nossa Senhora Aparecida, tradicionalmente marcado por peregrinações, orações e demonstrações de fé, ganhou uma dimensão política especial em 2026. A menos de duas semanas do segundo turno presidencial, Luiz Inácio Lula da Silva e Flávio Bolsonaro participaram de celebrações religiosas distintas, enquanto milhares de devotos se reuniam no maior santuário mariano do país. A movimentação ocorre após uma controvérsia envolvendo a padroeira e a circulação de informações falsas durante a campanha.
Lula e Flávio Bolsonaro participam de missas separadas em Brasília

Na segunda-feira, 12 de outubro, os dois candidatos à Presidência da República incluíram celebrações católicas em suas agendas, em um momento de intensa disputa eleitoral.
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), de 80 anos, participou de uma missa reservada na capela do Palácio da Alvorada, em Brasília, acompanhado da primeira-dama Janja e de integrantes de seu governo e campanha.
Durante o feriado, Lula defendeu o respeito às diferentes crenças religiosas e criticou episódios de intolerância envolvendo a imagem de Nossa Senhora Aparecida.
Já o senador Flávio Bolsonaro (PL), de 45 anos, compareceu à Catedral Metropolitana de Brasília, acompanhado de sua esposa, Fernanda Bolsonaro, e de aliados políticos.
O candidato afirmou que participou da celebração a convite do cardeal Dom Paulo Cezar Costa, arcebispo metropolitano de Brasília.
Embora Flávio seja evangélico, sua presença em uma missa católica ocorreu em meio à repercussão de informações falsas envolvendo a padroeira.
Os dois candidatos disputarão o segundo turno presidencial em 25 de outubro. As celebrações aconteceram separadamente, sem encontro entre os adversários.
Uma informação falsa colocou a padroeira no centro da campanha
A controvérsia começou a ganhar força durante o primeiro turno, quando circulou nas redes sociais uma alegação de que Flávio Bolsonaro pretendia retirar de Nossa Senhora Aparecida o título de padroeira do Brasil caso fosse eleito presidente.
A informação era falsa e foi negada pelo candidato do Partido Liberal.
Apesar do desmentido, o assunto ganhou espaço na campanha e foi mencionado por Lula em manifestações públicas.
A disputa reacendeu discussões sobre a utilização de símbolos religiosos como instrumentos de mobilização eleitoral.
O episódio também trouxe à memória outras campanhas de desinformação, incluindo a alegação falsa, difundida em 2022, de que Lula pretendia fechar igrejas evangélicas caso chegasse à Presidência.
Nos dois casos, afirmações sem fundamento envolveram questões religiosas capazes de provocar reações entre diferentes grupos de eleitores.
O contexto evidencia como a religião permanece presente no debate político brasileiro, especialmente quando temas ligados à identidade e à liberdade de crença entram na discussão.
Aparecida recebe milhares de peregrinos enquanto candidatos disputam atenção

Enquanto os presidenciáveis participavam de missas em Brasília, milhares de fiéis se reuniam no Santuário Nacional de Nossa Senhora Aparecida, no interior de São Paulo.
A celebração contou com a presença do vice-presidente Geraldo Alckmin (PSB), candidato à reeleição na chapa de Lula, acompanhado da esposa, Lu Alckmin, e de outras autoridades.
Entre os participantes estavam o ministro da Saúde, Alexandre Padilha, e representantes políticos ligados ao governo.
O santuário recebeu peregrinos que percorreram dezenas ou centenas de quilômetros para agradecer graças alcançadas e cumprir promessas religiosas.
Segundo a agência EFE, mais de 100 mil pessoas se dirigiram à região durante a semana das celebrações.
A devoção a Nossa Senhora Aparecida tem origem em 1717, quando pescadores encontraram uma pequena imagem da Virgem Maria no rio Paraíba do Sul.
Desde então, a santa tornou-se um dos símbolos religiosos mais importantes do país, atraindo milhões de visitantes anualmente.
Para muitos peregrinos, entretanto, a presença da política nas celebrações provoca desconforto.
Alguns fiéis entrevistados durante o feriado criticaram a utilização da imagem da padroeira para conquistar votos, defendendo que a festa preserve seu caráter religioso.
Igreja Católica pede respeito e rejeita a utilização da fé para alimentar divisões
Durante a missa solene em Aparecida, o arcebispo dom Mário Antônio da Silva fez um apelo contra o ódio, a violência e a intolerância.
O religioso destacou a importância do diálogo e do respeito entre pessoas com opiniões políticas diferentes.
Sem declarar apoio a qualquer candidato, ele defendeu que a fé seja utilizada para promover solidariedade e reconciliação, não para aprofundar conflitos.
A posição acompanha as orientações da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil.
Em uma mensagem oficial sobre as eleições de 2026, a CNBB reafirmou que a Igreja Católica não indica candidatos nem partidos políticos.
A instituição também incentivou os brasileiros a avaliar propostas, trajetórias e compromissos dos concorrentes, considerando princípios como dignidade humana, justiça social e defesa da democracia.
Por que o eleitorado católico ganhou tanta importância nesta eleição?

O peso político da religião está diretamente relacionado à composição religiosa da população brasileira.
De acordo com o Censo Demográfico de 2022, divulgado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), aproximadamente 56,7% dos brasileiros com 10 anos ou mais se declaravam católicos, enquanto 26,9% eram evangélicos.
Embora o catolicismo continue sendo a maior religião do país, sua participação diminuiu nas últimas décadas, ao mesmo tempo que cresceu a população evangélica.
Pesquisas eleitorais têm registrado diferenças nas preferências políticas desses grupos, embora nenhum deles apresente comportamento uniforme.
A diversidade de posições entre os fiéis também demonstra que a identificação religiosa não determina automaticamente o voto.
Nesse cenário, as celebrações de 12 de outubro ofereceram aos candidatos uma oportunidade de dialogar simbolicamente com uma parcela expressiva do eleitorado.
A presença dos presidenciáveis em missas distintas, porém, não permite concluir que os eventos produzirão mudanças concretas nas intenções de voto.
Com o segundo turno marcado para 25 de outubro, a relação entre religião e política continua sendo um dos temas presentes na campanha.
Para a Igreja, o desafio é preservar a liberdade religiosa e evitar que a devoção à padroeira seja confundida com apoio institucional a qualquer candidatura.