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Nossa Senhora Aparecida entra na disputa entre Lula e Flávio Bolsonaro a poucos dias do segundo turno

A celebração da padroeira do Brasil ganhou um significado político inesperado. Lula e Flávio Bolsonaro participaram de missas separadas em meio à disputa pelo eleitorado católico.
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Tempo de leitura: 4 minutos

O Dia de Nossa Senhora Aparecida, tradicionalmente marcado por peregrinações, orações e demonstrações de fé, ganhou uma dimensão política especial em 2026. A menos de duas semanas do segundo turno presidencial, Luiz Inácio Lula da Silva e Flávio Bolsonaro participaram de celebrações religiosas distintas, enquanto milhares de devotos se reuniam no maior santuário mariano do país. A movimentação ocorre após uma controvérsia envolvendo a padroeira e a circulação de informações falsas durante a campanha.

Lula e Flávio Bolsonaro participam de missas separadas em Brasília

Nossa Senhora Aparecida entra na disputa entre Lula e Flávio Bolsonaro a poucos dias do segundo turno
© Marisa Cornelsen – Unsplash

Na segunda-feira, 12 de outubro, os dois candidatos à Presidência da República incluíram celebrações católicas em suas agendas, em um momento de intensa disputa eleitoral.

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), de 80 anos, participou de uma missa reservada na capela do Palácio da Alvorada, em Brasília, acompanhado da primeira-dama Janja e de integrantes de seu governo e campanha.

Durante o feriado, Lula defendeu o respeito às diferentes crenças religiosas e criticou episódios de intolerância envolvendo a imagem de Nossa Senhora Aparecida.

Já o senador Flávio Bolsonaro (PL), de 45 anos, compareceu à Catedral Metropolitana de Brasília, acompanhado de sua esposa, Fernanda Bolsonaro, e de aliados políticos.

O candidato afirmou que participou da celebração a convite do cardeal Dom Paulo Cezar Costa, arcebispo metropolitano de Brasília.

Embora Flávio seja evangélico, sua presença em uma missa católica ocorreu em meio à repercussão de informações falsas envolvendo a padroeira.

Os dois candidatos disputarão o segundo turno presidencial em 25 de outubro. As celebrações aconteceram separadamente, sem encontro entre os adversários.

Uma informação falsa colocou a padroeira no centro da campanha

A controvérsia começou a ganhar força durante o primeiro turno, quando circulou nas redes sociais uma alegação de que Flávio Bolsonaro pretendia retirar de Nossa Senhora Aparecida o título de padroeira do Brasil caso fosse eleito presidente.

A informação era falsa e foi negada pelo candidato do Partido Liberal.

Apesar do desmentido, o assunto ganhou espaço na campanha e foi mencionado por Lula em manifestações públicas.

A disputa reacendeu discussões sobre a utilização de símbolos religiosos como instrumentos de mobilização eleitoral.

O episódio também trouxe à memória outras campanhas de desinformação, incluindo a alegação falsa, difundida em 2022, de que Lula pretendia fechar igrejas evangélicas caso chegasse à Presidência.

Nos dois casos, afirmações sem fundamento envolveram questões religiosas capazes de provocar reações entre diferentes grupos de eleitores.

O contexto evidencia como a religião permanece presente no debate político brasileiro, especialmente quando temas ligados à identidade e à liberdade de crença entram na discussão.

Aparecida recebe milhares de peregrinos enquanto candidatos disputam atenção

Nossa Senhora Aparecida entra na disputa entre Lula e Flávio Bolsonaro a poucos dias do segundo turno
© fabianoshow4 – pexels

Enquanto os presidenciáveis participavam de missas em Brasília, milhares de fiéis se reuniam no Santuário Nacional de Nossa Senhora Aparecida, no interior de São Paulo.

A celebração contou com a presença do vice-presidente Geraldo Alckmin (PSB), candidato à reeleição na chapa de Lula, acompanhado da esposa, Lu Alckmin, e de outras autoridades.

Entre os participantes estavam o ministro da Saúde, Alexandre Padilha, e representantes políticos ligados ao governo.

O santuário recebeu peregrinos que percorreram dezenas ou centenas de quilômetros para agradecer graças alcançadas e cumprir promessas religiosas.

Segundo a agência EFE, mais de 100 mil pessoas se dirigiram à região durante a semana das celebrações.

A devoção a Nossa Senhora Aparecida tem origem em 1717, quando pescadores encontraram uma pequena imagem da Virgem Maria no rio Paraíba do Sul.

Desde então, a santa tornou-se um dos símbolos religiosos mais importantes do país, atraindo milhões de visitantes anualmente.

Para muitos peregrinos, entretanto, a presença da política nas celebrações provoca desconforto.

Alguns fiéis entrevistados durante o feriado criticaram a utilização da imagem da padroeira para conquistar votos, defendendo que a festa preserve seu caráter religioso.

Igreja Católica pede respeito e rejeita a utilização da fé para alimentar divisões

Durante a missa solene em Aparecida, o arcebispo dom Mário Antônio da Silva fez um apelo contra o ódio, a violência e a intolerância.

O religioso destacou a importância do diálogo e do respeito entre pessoas com opiniões políticas diferentes.

Sem declarar apoio a qualquer candidato, ele defendeu que a fé seja utilizada para promover solidariedade e reconciliação, não para aprofundar conflitos.

A posição acompanha as orientações da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil.

Em uma mensagem oficial sobre as eleições de 2026, a CNBB reafirmou que a Igreja Católica não indica candidatos nem partidos políticos.

A instituição também incentivou os brasileiros a avaliar propostas, trajetórias e compromissos dos concorrentes, considerando princípios como dignidade humana, justiça social e defesa da democracia.

Por que o eleitorado católico ganhou tanta importância nesta eleição?

Nossa Senhora Aparecida entra na disputa entre Lula e Flávio Bolsonaro a poucos dias do segundo turno
© Josh Applegate – Unsplash

O peso político da religião está diretamente relacionado à composição religiosa da população brasileira.

De acordo com o Censo Demográfico de 2022, divulgado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), aproximadamente 56,7% dos brasileiros com 10 anos ou mais se declaravam católicos, enquanto 26,9% eram evangélicos.

Embora o catolicismo continue sendo a maior religião do país, sua participação diminuiu nas últimas décadas, ao mesmo tempo que cresceu a população evangélica.

Pesquisas eleitorais têm registrado diferenças nas preferências políticas desses grupos, embora nenhum deles apresente comportamento uniforme.

A diversidade de posições entre os fiéis também demonstra que a identificação religiosa não determina automaticamente o voto.

Nesse cenário, as celebrações de 12 de outubro ofereceram aos candidatos uma oportunidade de dialogar simbolicamente com uma parcela expressiva do eleitorado.

A presença dos presidenciáveis em missas distintas, porém, não permite concluir que os eventos produzirão mudanças concretas nas intenções de voto.

Com o segundo turno marcado para 25 de outubro, a relação entre religião e política continua sendo um dos temas presentes na campanha.

Para a Igreja, o desafio é preservar a liberdade religiosa e evitar que a devoção à padroeira seja confundida com apoio institucional a qualquer candidatura.

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