Separados por pouco mais de dois milhões de votos, Flávio Bolsonaro e Luiz Inácio Lula da Silva chegaram ao segundo turno por caminhos geográficos muito diferentes. Quando os resultados são colocados no mapa, a divisão fica evidente: enquanto Lula preservou uma vantagem expressiva em seu principal reduto eleitoral, Flávio dominou grande parte do Sul, Centro-Oeste e importantes estados do Sudeste. Agora, cada campanha precisa descobrir onde ainda existem votos para conquistar.
Flávio venceu o primeiro turno por uma margem pequena
Com 100% das seções apuradas, Flávio Bolsonaro terminou o primeiro turno com 47,03% dos votos válidos, totalizando 56.104.503 votos. Lula ficou com 45,16%, ou 53.879.538 votos
A diferença nacional, portanto, ficou em aproximadamente 2,2 milhões de votos.
Nenhum dos dois alcançou a maioria absoluta necessária para encerrar a disputa no primeiro turno. A decisão ficou para 25 de outubro, quando os brasileiros retornarão às urnas para escolher entre os dois candidatos.
Os demais concorrentes ficaram muito atrás. Augusto Cury terminou em terceiro, com 2,89%, seguido por Renan Santos, com 2,24%, e Ronaldo Caiado, com 2,18%. Juntos, esses candidatos representam milhões de votos que agora se tornam alvo direto das duas campanhas.
Os números nacionais, porém, contam apenas uma parte da história.
O Nordeste continua sendo a grande fortaleza de Lula

Quando o resultado é dividido geograficamente, aparece um padrão bastante conhecido da política brasileira recente.
Lula dominou o Nordeste. O presidente venceu na Bahia com aproximadamente 66%, no Maranhão com 64%, no Ceará e em Pernambuco com cerca de 63%, na Paraíba com 61% e no Piauí com aproximadamente 71%. Também ficou à frente no Rio Grande do Norte, Sergipe e Alagoas.
O desempenho nessa região foi fundamental para impedir que a vantagem nacional de Flávio fosse ainda maior.
No Norte, o cenário ficou mais dividido. Lula venceu no Amazonas, Pará e Amapá, enquanto Flávio obteve resultados expressivos em Acre, Rondônia e Roraima.
Roraima foi um dos exemplos mais extremos dessa divisão: Flávio recebeu aproximadamente 71% dos votos. Em Rondônia, chegou a 67%, enquanto no Acre alcançou cerca de 65%.
Para Lula, uma das perguntas do segundo turno será quanto ainda é possível crescer nos estados onde já possui ampla vantagem. Aumentar participação e mobilizar eleitores que não compareceram pode ser tão importante quanto tentar conquistar territórios dominados pelo adversário.
Flávio construiu um cinturão de vantagem do Sul ao Centro-Oeste
Se o Nordeste permaneceu majoritariamente vermelho, o Sul apresentou praticamente o movimento contrário.
Flávio Bolsonaro venceu em Santa Catarina com cerca de 67%, no Paraná com 60% e no Rio Grande do Sul com aproximadamente 56%.
No Centro-Oeste, o padrão se repetiu.
Mato Grosso deu aproximadamente 65% ao candidato do PL, enquanto Mato Grosso do Sul registrou cerca de 59%. Flávio também venceu em Goiás e no Distrito Federal.
O mapa eleitoral mostra, portanto, uma extensa área territorial favorável ao candidato bolsonarista. Isso não significa necessariamente uma vantagem proporcional equivalente em número de votos, já que a população brasileira está distribuída de maneira bastante desigual pelo território.
É justamente por isso que o Sudeste assume importância extraordinária.
Minas Gerais volta a ocupar o centro das atenções
São Paulo, Minas Gerais e Rio de Janeiro concentram dezenas de milhões de eleitores e podem definir a capacidade de crescimento de cada candidatura.
Flávio venceu em São Paulo com aproximadamente 52% e no Rio de Janeiro com cerca de 53%. Também terminou à frente no Espírito Santo.
Mas o resultado mais observado provavelmente será Minas Gerais.
Flávio conquistou aproximadamente 48% dos votos no estado, ficando novamente à frente de Lula.
Minas tem enorme peso eleitoral e costuma receber atenção especial justamente por combinar características políticas, econômicas e sociais encontradas em diferentes partes do país.
A divisão também aparece dentro dos próprios estados. Grandes cidades podem votar de maneira diferente do interior. Lula, por exemplo, venceu na cidade de São Paulo, embora Flávio tenha levado o estado. Porto Alegre também preferiu Lula, apesar da vitória de Flávio no Rio Grande do Sul.
Isso significa que as campanhas não podem simplesmente pensar em estados inteiros como blocos homogêneos.
O segundo turno começa com uma batalha pelo mapa
A vantagem de Flávio oferece uma posição inicial favorável, mas 47,03% ainda não representam os votos necessários para vencer.
Lula, por sua vez, precisa recuperar uma diferença de aproximadamente 2,2 milhões de votos enquanto tenta impedir que os eleitores dos candidatos eliminados migrem majoritariamente para o adversário.
É aí que o mapa deixa de ser apenas uma fotografia da eleição e se transforma em estratégia.
Flávio precisa consolidar seu domínio no Sul, Centro-Oeste e Sudeste e tentar reduzir a diferença no Nordeste. Lula precisa fazer praticamente o movimento inverso: ampliar ainda mais sua vantagem nordestina enquanto procura recuperar terreno em estados populosos onde perdeu.
O primeiro turno mostrou um Brasil profundamente dividido geograficamente. O segundo decidirá qual dos dois candidatos consegue atravessar melhor essas fronteiras eleitorais.