O glioblastoma é um dos cânceres mais agressivos e de difícil controle da medicina moderna. Agora, uma nova pesquisa mostra que seus efeitos vão muito além do cérebro. Publicado na revista Nature Neuroscience, o estudo revela que o tumor afeta o organismo de forma sistêmica, corroendo ossos, alterando células imunológicas e desafiando os tratamentos atuais.
Um câncer que ultrapassa o cérebro
Pesquisadores do Montefiore Einstein Comprehensive Cancer Center, nos Estados Unidos, descobriram que o glioblastoma não se restringe ao tecido cerebral. Ele também corrói o crânio, modifica a composição da medula óssea e interfere no sistema imunológico.
Os testes, realizados em parceria com cientistas do Japão e da Suécia, mostraram que essa forma de câncer pode alterar a estrutura óssea ao redor do cérebro e abrir novos canais entre o crânio e o sistema nervoso. Essa comunicação anômala permite que o tumor influencie a produção de células de defesa do corpo.
De acordo com o Instituto Nacional do Câncer dos EUA, mesmo com cirurgia, quimioterapia e radioterapia, os pacientes vivem, em média, 15 meses após o diagnóstico.
Como o glioblastoma age no organismo
Utilizando técnicas avançadas de imagem, a equipe analisou camundongos com dois tipos de glioblastoma e descobriu que ambos causavam erosão nos ossos cranianos, principalmente nas junções ósseas. Quando comparadas às tomografias de pacientes humanos, as imagens mostraram perda de espessura óssea nas mesmas regiões afetadas.
As erosões aumentaram o número e o diâmetro dos canais entre o crânio e o cérebro — estruturas que, segundo os cientistas, permitem que o tumor “converse” com a medula óssea craniana, onde se originam as células do sistema imunológico.
Inflamação e perda de defesa
Com base no sequenciamento de RNA de célula única, os pesquisadores observaram que o contato entre o tumor e a medula óssea altera o equilíbrio das células imunes. O câncer aumenta a presença de neutrófilos e outras células inflamatórias, enquanto reduz as células B, essenciais para o reconhecimento e a destruição de tumores.
Essas alterações ocorrem tanto na medula óssea do crânio quanto na do fêmur, o que reforça que o glioblastoma afeta o corpo de forma sistêmica. “Precisamos de terapias que restaurem o equilíbrio normal das células imunes na medula craniana”, afirmou o pesquisador E. Richard Stanley, um dos autores do estudo.
Testes com medicamentos e novos desafios
Os cientistas testaram medicamentos usados contra osteoporose, como o ácido zoledrônico e o denosumabe, na tentativa de impedir a corrosão do crânio. Embora tenham reduzido a erosão óssea, os resultados foram preocupantes: em alguns casos, o tumor cresceu mais rapidamente, e os remédios ainda prejudicaram a resposta imunológica do tratamento.
Os autores destacam que a descoberta abre novos caminhos para entender e combater o glioblastoma. “Esperamos que este estudo leve ao desenvolvimento de estratégias mais eficazes de tratamento”, concluiu Jinan Behnan, coautor da pesquisa.
A revelação reforça o quão complexo é esse tipo de câncer — e o quanto o corpo inteiro, não apenas o cérebro, entra em colapso diante dele.
Fonte: Metrópoles