O Sudário de Turim é uma das relíquias mais debatidas da história. Para milhões de pessoas, o tecido teria envolvido o corpo de Jesus Cristo após a crucificação. Para a ciência, porém, sua origem continua sendo um enigma — e cada novo estudo parece afastar ainda mais qualquer resposta definitiva.
Uma nova pesquisa liderada por Gianni Barcaccia, da Universidade de Pádua, analisou vestígios de DNA presentes no tecido e chegou a uma conclusão desconfortável: confirmar a origem do sudário pode ser praticamente impossível.
Um tecido com muitas histórias — e muitos contatos
O estudo, ainda não revisado por pares e publicado como pré-print, analisou amostras coletadas do sudário ao longo de décadas.
O que os pesquisadores encontraram foi uma diversidade impressionante de material genético:
- DNA humano de múltiplas origens
- Vestígios de animais e peixes
- Material genético de plantas de diferentes regiões do mundo
Segundo os autores, essa mistura indica que o tecido esteve em contato com inúmeras pessoas ao longo do tempo, o que torna extremamente difícil identificar qualquer “DNA original”.
Em termos científicos, trata-se de um caso clássico de metagenômica — quando o material analisado reflete mais o ambiente e a história de exposição do objeto do que sua origem inicial.
Um objeto cercado por séculos de controvérsia
O Sudário de Turim mede cerca de 4,4 metros de comprimento e apresenta a imagem de um homem com marcas de crucificação.
Seu primeiro registro histórico claro data de 1389, quando já era considerado uma possível falsificação. Desde então, passou por diferentes proprietários e até sobreviveu a um incêndio, antes de ser preservado em Turim, na Itália.
Hoje, ele está guardado na Capela do Santo Sudário, onde continua sendo objeto de devoção e estudo.
A ciência já havia levantado dúvidas antes
O novo estudo reforça conclusões anteriores. Em 1988, pesquisadores realizaram testes de datação por carbono com autorização do Vaticano.
Os resultados, publicados em 1989, indicaram que o tecido foi produzido entre os séculos XIII e XIV — muito depois da época em que Jesus teria vivido.
Embora haja debates sobre essa análise, muitos especialistas consideram o estudo robusto.
DNA demais, respostas de menos
Na nova pesquisa, os cientistas analisaram amostras coletadas em 1978 e fios usados nos testes de 1988. Para entender o nível de contaminação, também criaram tecidos experimentais expostos a DNA humano.
Os resultados mostraram:
- Pelo menos 19 espécies de plantas, incluindo do Mediterrâneo, Ásia e Américas
- DNA animal e marinho
- Material genético de pelo menos 14 indivíduos humanos
Parte desse DNA humano foi associada a populações do Oriente Médio e da Índia — o que pode indicar rotas históricas de circulação do tecido ou até sua possível fabricação.
Mas há um problema central: não é possível determinar quando esses contatos ocorreram.
O maior obstáculo: o tempo
Ao longo de séculos, o sudário foi tocado, exposto, transportado e estudado. Cada interação deixou traços.
Isso significa que qualquer sinal genético original — se ainda existir — está misturado a uma enorme quantidade de contaminação posterior.
Na prática, o objeto conta mais sobre sua história de uso do que sobre sua origem.
Então, nunca saberemos a verdade?
A conclusão dos pesquisadores é cautelosa: o estudo revela aspectos importantes sobre a preservação do sudário, mas não resolve o mistério de sua origem.
Para muitos cientistas, a explicação mais provável continua sendo a apontada pela datação por carbono — uma origem medieval, possivelmente na França.
Ainda assim, mesmo que não seja do século I, o Sudário de Turim mantém seu valor.
Entre fé, ciência e história
Independentemente de sua autenticidade, o sudário permanece como um dos objetos mais fascinantes da interseção entre religião, ciência e cultura.
Ele levanta questões que vão além da genética: sobre crença, evidência e a forma como lidamos com o passado.
E talvez esse seja o ponto mais interessante: mesmo sem respostas definitivas, o mistério continua sendo parte essencial de sua história.