Pular para o conteúdo
Ciência

O cigarro não afeta apenas os pulmões: estudos mostram que o tabaco pode reduzir a fertilidade e até impactar futuras gerações

Durante décadas, o cigarro foi associado principalmente ao câncer de pulmão e às doenças cardiovasculares. Mas a ciência vem revelando um efeito menos visível — e igualmente preocupante: o impacto profundo do tabagismo sobre a fertilidade masculina e feminina, incluindo alterações genéticas que podem atingir os filhos.
Por

Tempo de leitura: 4 minutos

Quando se fala nos danos provocados pelo cigarro, a imagem mais comum costuma ser a dos pulmões comprometidos pela fumaça. No entanto, o tabaco afeta praticamente todo o organismo — e uma das áreas mais atingidas pode ser justamente a capacidade reprodutiva.

Pesquisas recentes mostram que fumar interfere diretamente na fertilidade de homens e mulheres, reduz as chances de gravidez natural, piora os resultados de tratamentos de reprodução assistida e pode até deixar marcas biológicas nas próximas gerações.

O problema é tão amplo que organizações como a Organização Mundial da Saúde (OMS) e os Centros de Controle e Prevenção de Doenças dos Estados Unidos (CDC) já tratam o tabagismo como um dos principais fatores evitáveis ligados à infertilidade.

O impacto do cigarro no corpo feminino

Dinheiro para engravidar cedo: a estratégia controversa que a Rússia adotou para enfrentar seu maior problema demográfico
© Pexels

A relação entre tabagismo e infertilidade feminina já é considerada extremamente consistente pela literatura científica.

Segundo os estudos, fumar prejudica o funcionamento dos ovários, altera a maturação dos folículos responsáveis pelos óvulos e dificulta a implantação do embrião no útero.

Além disso, o cigarro interfere na formação de vasos sanguíneos que nutrem o endométrio — tecido essencial para a gravidez.

Os números chamam atenção: mulheres fumantes podem ter até 60% mais risco de enfrentar problemas de fertilidade em comparação com aquelas que nunca fumaram.

Hoje, estima-se que cerca de 13% dos casos de infertilidade feminina estejam diretamente associados ao consumo de tabaco.

O cigarro acelera o envelhecimento dos ovários

Um dos efeitos mais preocupantes envolve o envelhecimento reprodutivo precoce.

Pesquisas da Women’s Health Initiative identificaram que tanto o tabagismo ativo quanto a exposição frequente à fumaça do cigarro podem antecipar a menopausa.

Em alguns casos, a menopausa ocorre entre um e quatro anos antes do esperado.

Na prática, isso significa que o cigarro reduz a chamada reserva ovariana — quantidade de óvulos disponíveis ao longo da vida — encurtando a janela fértil das mulheres.

Mesmo ex-fumantes podem apresentar impactos duradouros dependendo do tempo e da intensidade da exposição ao tabaco.

A fertilidade masculina também sofre forte impacto

Infertilidade Masculina
© FreePik

Embora muitas vezes os problemas de fertilidade sejam culturalmente associados às mulheres, a ciência mostra que o cigarro afeta severamente o sistema reprodutivo masculino.

A própria OMS afirma que o tabagismo compromete tanto a fertilidade quanto a potência sexual.

Os estudos apontam que fumar reduz o volume seminal, diminui a quantidade de espermatozoides e prejudica sua mobilidade — fator essencial para que a fecundação aconteça.

Além disso, substâncias tóxicas presentes no cigarro podem alterar a produção hormonal e provocar danos no DNA dos espermatozoides.

Isso não apenas reduz as chances de gravidez, mas também pode aumentar riscos relacionados ao desenvolvimento embrionário.

Outro efeito frequentemente associado ao tabagismo masculino é a disfunção erétil, consequência dos danos causados à circulação sanguínea.

O cigarro também prejudica a fertilização in vitro

O lobby da indústria do tabaco tem usado um estudo de 2020 para defender que o uso de cigarros eletrônicos estaria substituindo o cigarro tradicional entre os jovens.
© Unsplash

Quando a gravidez natural não acontece, muitos casais recorrem às técnicas de reprodução assistida, como a fertilização in vitro (FIV). Mas o cigarro continua sendo um obstáculo importante mesmo nesses tratamentos.

Mulheres fumantes costumam apresentar taxas de sucesso significativamente menores durante procedimentos de fertilização.

Os dados mostram que as chances de gravidez podem ser até 30% menores em comparação com pacientes não fumantes.

Além disso, essas mulheres frequentemente precisam de doses maiores de medicamentos hormonais para estimular os ovários durante o tratamento.

O efeito pode alcançar os filhos

Um dos aspectos mais impressionantes das pesquisas recentes é que os danos do cigarro podem ultrapassar a geração dos fumantes.

Filhos de mães que fumaram durante a gestação podem apresentar alterações reprodutivas na vida adulta.

No caso dos meninos, estudos indicam redução entre 20% e 40% na concentração de espermatozoides.

Já meninas expostas ao tabaco ainda no útero podem nascer com uma reserva ovariana menor, o que potencialmente reduz sua fertilidade futura.

Os cientistas acreditam que parte desses efeitos esteja relacionada a alterações genéticas e epigenéticas provocadas pelas substâncias tóxicas presentes na fumaça.

Um impacto silencioso que vai muito além dos pulmões

A descoberta desses efeitos reforça como o tabagismo atua de forma ampla no organismo humano.

Mais do que uma ameaça respiratória ou cardiovascular, o cigarro afeta hormônios, vasos sanguíneos, células reprodutivas e até mecanismos genéticos ligados à herança biológica.

Embora parar de fumar possa melhorar parte desses danos ao longo do tempo, especialistas alertam que alguns efeitos podem persistir durante anos.

Por isso, cada vez mais médicos defendem que a fertilidade também faça parte das campanhas de conscientização sobre os riscos do tabaco — especialmente entre pessoas jovens que ainda não percebem o impacto silencioso que o cigarro pode causar no futuro reprodutivo.

 

[ Fonte: Xataka ]

 

Partilhe este artigo

Artigos relacionados