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Tecnologia

Quase todos os CEOs esperam demissões causadas pela IA até 2028 — e jovens trabalhadores já sentem os efeitos da transformação

Uma pesquisa global revelou que 99% dos CEOs acreditam que iniciativas envolvendo inteligência artificial resultarão em cortes de empregos nos próximos dois anos. Enquanto empresas aceleram a automação em busca de lucro e produtividade, cresce o medo de uma crise silenciosa no mercado de trabalho, especialmente entre profissionais mais jovens.
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Tempo de leitura: 4 minutos

A inteligência artificial deixou de ser apenas uma promessa tecnológica e começou a redefinir o mercado de trabalho em velocidade acelerada. Agora, um novo relatório mostra até que ponto os próprios líderes empresariais acreditam que essa mudança será profunda — e dolorosa.

Segundo o estudo Global Talent Trends, da consultoria Mercer, praticamente todos os CEOs entrevistados afirmaram esperar que projetos de inteligência artificial provoquem demissões nos próximos dois anos.

O dado mais impressionante do levantamento é justamente o percentual: 99% dos executivos disseram estar preparados para cortes de pessoal impulsionados pela automação baseada em IA.

A pesquisa revela um cenário cada vez mais comum nas grandes empresas: entusiasmo extremo com ferramentas automatizadas e, ao mesmo tempo, pouca confiança na convivência equilibrada entre humanos e máquinas dentro do ambiente de trabalho.

CEOs apostam na automação como principal fonte de lucro

O relatório aponta que a maior parte dos executivos acredita que redesenhar funções profissionais para incorporar IA será a estratégia com maior retorno financeiro nos próximos anos.

Mas existe um detalhe importante.

Apenas 32% dos CEOs afirmaram acreditar que empresas conseguirão combinar de maneira realmente eficiente capacidades humanas e sistemas automatizados.

Na prática, isso sugere que muitos líderes corporativos já enxergam a inteligência artificial não como complemento da força de trabalho, mas como substituição direta de funcionários.

Jovens profissionais estão no centro da crise

Os impactos mais imediatos parecem atingir principalmente trabalhadores em início de carreira.

Segundo outra pesquisa citada no relatório, grande parte das reduções de pessoal associadas à IA deve se concentrar justamente em vagas juniores e posições de entrada.

A lógica por trás disso é relativamente simples: ferramentas de IA generativa conseguem executar com rapidez tarefas repetitivas, administrativas e operacionais que tradicionalmente eram atribuídas a profissionais iniciantes.

O problema é que essas funções também serviam como porta de entrada para formação prática dentro das empresas.

Durante décadas, muitos trabalhadores começavam realizando tarefas básicas antes de assumir responsabilidades mais complexas. Agora, parte desse processo está sendo eliminado.

O pior mercado de trabalho jovem desde a pandemia

Os efeitos dessa mudança já começaram a aparecer em diversos estudos recentes.

Pesquisadores apontam que o mercado de trabalho para pessoas entre 22 e 27 anos atravessa o momento mais difícil desde os períodos mais críticos da pandemia de Covid-19.

Em muitos setores, empresas reduziram programas de trainee, estágios e contratações de entrada, apostando que ferramentas de IA podem absorver parte dessas demandas operacionais.

Ao mesmo tempo, cresce o sentimento de insegurança entre trabalhadores mais jovens.

A geração Z está ficando mais desconfiada da IA

Curiosamente, a geração que cresceu cercada por tecnologia começa a demonstrar sinais de desgaste em relação à inteligência artificial.

Pesquisas recentes indicam que o uso de IA entre integrantes da geração Z começou a desacelerar, enquanto aumentam relatos de ansiedade, irritação e medo relacionados ao futuro profissional.

Para muitos jovens, a IA deixou de parecer uma ferramenta empolgante e passou a representar ameaça direta à estabilidade financeira e ao desenvolvimento de carreira.

Essa percepção negativa já ultrapassa o público jovem.

A rejeição à IA está crescendo

Uma pesquisa da NBC News divulgada em março mostrou um dado surpreendente: a inteligência artificial aparece hoje como uma das tecnologias mais mal avaliadas por eleitores americanos.

Segundo o levantamento, a rejeição à IA chegou a níveis tão altos que, em determinados recortes, ela foi vista de forma mais negativa até do que órgãos extremamente controversos do governo americano, como a agência de imigração ICE.

Parte dessa rejeição está ligada não apenas às demissões, mas também à sensação de perda de controle sobre o futuro do trabalho.

Nem todos acreditam que a IA realmente entregue os ganhos prometidos

Apesar do entusiasmo corporativo, especialistas continuam divididos sobre o real impacto produtivo da inteligência artificial.

Alguns pesquisadores acreditam que muitas empresas estejam exagerando os benefícios da IA para justificar cortes de custos e agradar investidores.

Outros apontam que, embora existam ganhos reais de produtividade em certas áreas, ainda não há evidências sólidas de que a tecnologia consiga substituir trabalhadores humanos em larga escala sem perda significativa de qualidade ou supervisão.

Mesmo assim, o discurso corporativo já está produzindo efeitos concretos sobre o ambiente de trabalho.

Surge um novo termo: “AIRD”

O impacto psicológico da automação se tornou tão intenso que pesquisadores começaram a propor um novo conceito para descrever esse fenômeno: “AI Replacement Dysfunction”, ou AIRD.

A expressão descreve a ansiedade crônica causada pelo medo de ser substituído por inteligência artificial.

Segundo o relatório da Mercer, apenas 44% dos funcionários disseram se sentir realmente bem no trabalho em 2026 — uma queda significativa em relação aos 66% registrados em 2024.

Para muitos trabalhadores, a insegurança deixou de ser apenas econômica e passou a ser existencial.

E isso talvez revele um dos aspectos mais delicados da revolução da inteligência artificial: a tecnologia ainda nem substituiu a maioria das pessoas, mas o medo de que isso aconteça já começou a transformar profundamente a maneira como milhões de profissionais enxergam o próprio futuro.

 

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