Durante quase um século, os recordes do Oscar pareceram sólidos como mármore. Algumas marcas eram repetidas como verdades absolutas, quase impossíveis de superar. Mas a edição de 2026 acaba de provar que até os limites mais sagrados podem ruir. Uma única produção concentrou tantas indicações que obrigou a Academia a reescrever seus próprios livros. Não é apenas um feito estatístico: é um sinal claro de que algo profundo está mudando na forma como Hollywood reconhece seu próprio cinema.
O recorde que ninguém acreditava que cairia
Por décadas, o teto máximo parecia estabelecido. Três filmes lendários dividiram o trono das maiores indicações da história: A malvada, Titanic e La La Land, todos com 14 nomeações. Era um número simbólico, quase mítico. Nenhuma produção havia conseguido ultrapassá-lo, apesar do crescimento das categorias e da complexidade das premiações.
Até agora.
Na lista divulgada para a 98ª edição do Oscar, um título inesperado rompeu essa barreira histórica. Os pecadores, dirigido por Ryan Coogler, alcançou impressionantes 16 indicações, tornando-se oficialmente o filme mais indicado de todos os tempos. Mesmo antes da cerimônia, a obra já garantiu seu lugar definitivo na memória da Academia.
O impacto foi imediato. Redes sociais explodiram, analistas revisaram estatísticas e veteranos da indústria reconheceram: uma linha invisível havia sido cruzada. Não se tratava apenas de superar clássicos, mas de alterar a própria escala de comparação do prêmio mais influente do cinema.
Terror, prestígio e uma conquista improvável
O feito chama ainda mais atenção pelo gênero. Historicamente, o terror sempre teve dificuldades para conquistar a Academia. Mesmo produções aclamadas raramente alcançam múltiplas categorias principais. Os pecadores contrariou essa tradição.
Além de Melhor Filme e Melhor Direção, a produção recebeu indicações em atuações centrais e coadjuvantes, roteiro, fotografia, edição, trilha sonora, design de produção, efeitos visuais, figurino, maquiagem e som. Michael B. Jordan lidera o elenco indicado, acompanhado por Delroy Lindo e Wunmi Mosaku.
Mas há um detalhe decisivo nessa equação.
Pela primeira vez, a Academia incluiu oficialmente a categoria de Melhor Elenco. Essa novidade ampliou o número possível de nomeações e contribuiu diretamente para que o filme alcançasse o total histórico. Ainda assim, mesmo sem essa nova categoria, Os pecadores teria chegado a 15 indicações — o suficiente para quebrar o recorde antigo de qualquer forma.
O que impressiona não é apenas a quantidade, mas a abrangência. Poucos filmes conseguiram dominar simultaneamente áreas técnicas, artísticas e interpretativas em uma única edição.
Um recorde que não garante coroação
Apesar do feito monumental, ninguém aposta em uma varredura completa. A concorrência deste ano é considerada uma das mais fortes da última década. Títulos como Uma batalha após a outra, Valor sentimental e Marty Supreme aparecem como favoritos em categorias estratégicas.
Historicamente, filmes com muitas indicações raramente convertem todas em vitórias. O próprio Titanic venceu 11 estatuetas, mas perdeu três. La La Land bateu recorde de nomeações e acabou superado em Melhor Filme na última hora.
Ainda assim, o destino final pouco importa para o marco já alcançado. Independentemente do número de prêmios conquistados, Os pecadores já alterou para sempre a narrativa do Oscar. A partir de agora, qualquer produção que busque recordes terá um novo alvo — mais alto, mais distante, mais ambicioso.
A cerimônia acontece em 16 de março, com apresentação de Conan O’Brien. Mas uma coisa já está decidida antes mesmo de o primeiro envelope ser aberto: o trono estatístico do Oscar mudou de dono. E a Academia acaba de entrar em uma nova era.