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“O Agente Secreto” vai ao Oscar e expõe algo maior que o cinema: memória, ciência e as marcas do autoritarismo no Brasil

Mesmo sem estatuetas, o filme de Kleber Mendonça Filho conquistou quatro indicações ao Oscar 2026 e se destacou por algo mais profundo: uma narrativa que mistura ficção, memória e ciência para refletir sobre o Brasil — do período da ditadura até os dilemas atuais.
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Tempo de leitura: 4 minutos

O cinema brasileiro voltou ao centro do debate internacional com “O Agente Secreto”, longa de Kleber Mendonça Filho que conquistou quatro indicações ao Oscar 2026. Apesar de não ter levado prêmios, o filme consolidou seu impacto ao propor uma leitura complexa do Brasil — cruzando passado e presente, ficção e realidade.

Ambientado em 1977, durante a ditadura militar, o longa não se limita a reconstruir um período histórico. Ele usa esse cenário como espelho para discutir temas ainda atuais, como desigualdade, autoritarismo e o papel da ciência na sociedade.

Um retrato do Brasil que atravessa décadas

O Agente Secreto
© X – @Metropoles

“O Agente Secreto” se destaca pela forma como reconstrói o Brasil dos anos 1970 com precisão quase obsessiva. Cenários, objetos, músicas e referências culturais criam uma atmosfera que aproxima o espectador daquele contexto histórico.

Ao mesmo tempo, o filme dialoga com o presente. Ao retratar práticas políticas, relações sociais e estruturas de poder, a narrativa sugere que muitos dos elementos daquele período continuam presentes no Brasil atual.

Essa combinação reforça uma ideia clássica do cinema: uma boa ficção pode funcionar como documento histórico — e vice-versa.

A ciência como eixo narrativo

Um dos aspectos mais originais do filme está na forma como ele incorpora a ciência à sua narrativa.

A história começa em um departamento de oceanografia da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), onde uma pesquisadora encontra uma perna humana no estômago de um tubarão. A cena, ao mesmo tempo inusitada e simbólica, já indica o tom da obra.

O protagonista, Armando, interpretado por Wagner Moura, é um jovem professor universitário envolvido com inovação tecnológica. Paralelamente, o filme apresenta, no tempo presente, pesquisadoras que analisam arquivos históricos relacionados àquele período.

Essa estrutura conecta passado e presente por meio da produção de conhecimento, mostrando a ciência como ferramenta de memória.

Universidades sob pressão

O longa também retrata a repressão sofrida por cientistas e acadêmicos durante a ditadura militar brasileira.

Pesquisadores, professores e estudantes aparecem como alvos de perseguição, mesmo sem representar ameaças diretas ao regime. Esse contexto ajuda a entender mudanças políticas importantes da época.

Segundo análises da ciência política, a repressão atingiu setores da elite — incluindo o meio acadêmico — e contribuiu para uma mudança de posicionamento em relação ao regime. Esse processo teria influenciado a transição para a democracia.

Autoritarismo, empresas e poder

Outro ponto relevante do filme é a representação do papel do empresariado durante a ditadura.

A narrativa sugere uma aliança entre empresários, tecnocratas e militares — conceito conhecido como “autoritarismo burocrático”, formulado pelo cientista político argentino Guillermo O’Donnell.

No filme, a perseguição ao protagonista não ocorre por militância política, mas por interesses econômicos. Um empresário corrupto tenta se apropriar de inovações desenvolvidas na universidade, associando ciência a lucro e poder.

Esse retrato amplia a discussão sobre corrupção, mostrando que ela não se limita ao Estado, mas também envolve relações entre setores públicos e privados.

Ecos no Brasil contemporâneo

Embora ambientado em 1977, o filme estabelece paralelos claros com o presente.

A narrativa sugere que práticas autoritárias, desigualdades estruturais e conflitos políticos continuam presentes no Brasil atual. Episódios recentes da política nacional reforçam essa percepção.

Além disso, o filme dialoga com debates contemporâneos sobre ciência e conhecimento. Nos últimos anos, instituições acadêmicas enfrentaram pressões políticas e discursos que questionam sua legitimidade.

Desigualdade e relações sociais

Como em outras obras de Kleber Mendonça Filho, a desigualdade social aparece como elemento central.

O filme aborda questões raciais, relações de poder dentro das famílias e dinâmicas sociais marcadas por hierarquias. Personagens de diferentes origens revelam como essas estruturas influenciam o cotidiano.

Mesmo figuras que parecem solidárias acabam reproduzindo, de forma sutil, relações de desigualdade — um retrato próximo da realidade brasileira.

Ficção, mas com raízes reais

Embora não seja baseado em uma história específica, “O Agente Secreto” se apoia em elementos reais para construir sua narrativa.

Um exemplo curioso é a “perna cabeluda”, uma lenda urbana que ganhou destaque na imprensa pernambucana durante a ditadura, em um contexto de censura.

Esse tipo de detalhe reforça o caráter híbrido do filme: uma ficção que dialoga constantemente com a realidade.

Um cinema que investiga o país

Mais do que um drama histórico, “O Agente Secreto” funciona como uma investigação sobre o Brasil.

Ao combinar ciência, política e memória, o filme propõe uma reflexão ampla sobre o país — suas origens, contradições e permanências.

Para além do Oscar, seu principal feito talvez seja esse: mostrar que entender o Brasil exige olhar para o passado com atenção, mas também reconhecer como ele continua presente no nosso cotidiano.

 

[ Fonte: The Conversation ]

 

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