A inteligência artificial está transformando o mundo, das buscas na internet a diagnósticos médicos. Mas, por trás das respostas instantâneas de ferramentas como o ChatGPT, existe uma estrutura invisível que consome energia e, principalmente, água em volumes alarmantes. Este artigo explora os custos ambientais da IA, os planos do governo brasileiro para o setor e os riscos ignorados nesse avanço tecnológico.
Como a inteligência artificial consome água?

Plataformas de IA, como o ChatGPT, operam por meio de data centers — enormes estruturas que concentram servidores responsáveis por processar bilhões de dados. Esses equipamentos geram calor intenso e precisam de sistemas de resfriamento eficientes. A forma mais comum é o uso de água doce, que circula nos sistemas e evapora no processo.
Um estudo da Universidade da Califórnia estimou que entre 20 e 50 perguntas a um chatbot consomem, indiretamente, cerca de meio litro de água potável. Pode parecer pouco, mas o ChatGPT tem 400 milhões de usuários semanais. Se cada um fizer essa quantidade de perguntas, o total semanal de água evaporada chegaria a 200 milhões de litros — o suficiente para abastecer cidades inteiras por um dia.
O plano do Brasil para atrair data centers
De olho no crescimento desse setor, o governo brasileiro está criando incentivos fiscais para atrair data centers ao país. A proposta faz parte do Plano Nacional de Data Centers (Redata), que pretende captar até R$ 2 trilhões em investimentos na próxima década. Entre as medidas, está a isenção de impostos para equipamentos importados e exportações de serviços do setor.
O discurso oficial também destaca a matriz energética brasileira, majoritariamente hidrelétrica, como uma vantagem ambiental frente a países que dependem de combustíveis fósseis. A estratégia foi apresentada recentemente na Califórnia pelo ministro Fernando Haddad, em encontros com representantes de big techs.
As críticas ao projeto e os riscos ambientais
Apesar das promessas de sustentabilidade, o plano ainda não foi publicado oficialmente. Especialistas apontam a falta de transparência e criticam a ausência de participação do Ministério do Meio Ambiente nas discussões. A principal preocupação é com o impacto hídrico em regiões já afetadas por secas e escassez de água.
Em 2024, o Brasil enfrentou a pior seca da história recente, afetando gravemente bacias hidrográficas, especialmente no Sul do país. Mesmo assim, empresas como a Microsoft e o Google seguem ampliando seus centros de dados e aumentando o consumo de água. A Microsoft, por exemplo, admitiu que 42% da água usada em seus data centers vem de regiões sob estresse hídrico.
Existe alternativa sustentável?
Com a crescente pressão ambiental, as empresas de tecnologia estão investindo em soluções para reduzir o consumo de água. Algumas das medidas em estudo incluem:
- Sistemas de resfriamento a ar, que dispensam o uso de água.
- Novas tecnologias de placas de resfriamento que podem economizar até 30% da água.
- Uso de energia solar.
- Reutilização de água industrial em vez de água potável.
A Microsoft chegou a testar data centers submersos, mas o projeto foi encerrado. A OpenAI e outras empresas também exploram possibilidades, mas nenhuma solução de larga escala foi implementada até agora.
A necessidade de políticas públicas e fiscalização
Para especialistas como Diogo Cortiz e Rudolf Buhler, o avanço tecnológico precisa estar atrelado a exigências ambientais claras. Caso contrário, corremos o risco de trocar inovação por degradação. A IA pode até ajudar, no futuro, a encontrar soluções sustentáveis — mas até lá, a tendência é de aumento contínuo no consumo de recursos naturais.
Cortiz reforça que enquanto houver água disponível, as empresas continuarão utilizando, mesmo com mecanismos de compensação. “Precisamos cobrar regulação e políticas públicas que limitem esse uso. O futuro da tecnologia deve ser também o futuro do planeta”, conclui.
Fonte: G1.Globo