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Ciência

O cérebro humano esconde uma vantagem que máquinas ainda não conseguem copiar

Enquanto a inteligência artificial avança em velocidade assustadora, cientistas começam a olhar para capacidades humanas esquecidas que podem definir quem conseguirá se adaptar ao futuro — e quem ficará para trás.
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Tempo de leitura: 4 minutos

Durante anos, o debate sobre inteligência artificial girou em torno das máquinas: o que elas seriam capazes de fazer, quais empregos substituiriam e até onde poderiam chegar. Mas uma neurocientista britânica decidiu inverter a lógica. Em vez de perguntar como a IA mudará os humanos, ela passou a investigar como o cérebro humano pode evoluir para sobreviver nesse novo cenário. E as respostas revelam habilidades inesperadas que talvez já estejam escondidas dentro de nós.

Habilidades ignoradas podem se tornar as mais valiosas do século

Para muita gente, sobreviver à era da inteligência artificial significa aprender programação, dominar ferramentas digitais ou acompanhar as novas tecnologias. Mas Hannah Critchlow, neurocientista da Universidade de Cambridge, acredita que a verdadeira vantagem competitiva do futuro talvez esteja em capacidades muito mais humanas — e frequentemente subestimadas.

Em seu livro The 21st Century Brain, ela explora características como empatia, criatividade, flexibilidade mental e tolerância à incerteza. Segundo a pesquisadora, essas competências serão fundamentais em um mundo no qual as máquinas executarão tarefas técnicas cada vez melhor.

O cérebro humano esconde uma vantagem que máquinas ainda não conseguem copiar
© unsplash

O ponto mais curioso é que nosso cérebro praticamente não mudou desde os tempos pré-históricos. Apesar de toda a revolução tecnológica, a estrutura cerebral humana continua extremamente parecida com a de milhares de anos atrás. Há inclusive evidências arqueológicas de que o cérebro humano encolheu ligeiramente nos últimos 10 mil anos.

Ainda assim, Critchlow afirma que existe um enorme potencial adormecido na mente humana. Para ela, a neurociência moderna pode ajudar as pessoas a desenvolver habilidades cognitivas que normalmente passam despercebidas na vida cotidiana.

A cientista começou a escrever o livro antes da explosão recente da IA generativa, mas já percebia que a tecnologia estava prestes a alterar profundamente a sociedade. Isso despertou uma pergunta central: se a inteligência artificial foi criada a partir do entendimento do cérebro humano, então talvez esse mesmo conhecimento também possa ser usado para fortalecer nossa própria inteligência biológica.

Empatia e inteligência emocional deixaram de ser “habilidades secundárias”

Durante muito tempo, inteligência emocional foi tratada quase como um detalhe no ambiente profissional e acadêmico. Agora, pesquisadores começam a enxergá-la como um dos fatores mais importantes para o bem-estar e até para o sucesso pessoal.

Segundo Critchlow, estudos indicam que empatia e inteligência emocional influenciam diretamente a qualidade dos relacionamentos, a satisfação com a vida e até o desempenho acadêmico. E embora exista um componente genético nessas características, elas podem ser treinadas.

A neurocientista cita pesquisas do psicólogo Jamil Zaki, da Universidade de Stanford, que defendem algo aparentemente simples: desenvolver compaixão por si mesmo. Parar por alguns instantes e tentar entender as próprias emoções pode gerar efeitos profundos no cérebro.

Perguntas como “por que estou me sentindo assim?” ou “o que posso fazer para lidar melhor com isso?” ajudam a fortalecer circuitos ligados à autorregulação emocional. E, curiosamente, esse processo tende a expandir naturalmente a empatia em relação aos outros.

Mas talvez a descoberta mais surpreendente esteja em outro lugar do corpo humano: o intestino.

O intestino pode influenciar decisões, altruísmo e comportamento social

O cérebro humano esconde uma vantagem que máquinas ainda não conseguem copiar
© unsplash

Uma das partes mais intrigantes das pesquisas apresentadas por Critchlow envolve o microbioma intestinal. Estudos recentes começam a indicar que bactérias presentes no intestino podem afetar diretamente emoções, comportamento social e até tendências altruístas.

Em um experimento conduzido pela pesquisadora Hilke Plassmann, voluntários saudáveis passaram semanas consumindo pré e probióticos. O resultado chamou atenção: aqueles que desenvolveram maior diversidade intestinal demonstraram comportamentos mais altruístas do que o grupo placebo.

Os participantes ficaram mais propensos, por exemplo, a abrir mão de parte do próprio dinheiro em favor de maior igualdade entre outras pessoas.

Os cientistas ainda investigam os mecanismos exatos por trás disso, mas há pistas importantes. O intestino possui uma enorme rede neural conectada ao cérebro através do nervo vago. É justamente essa conexão que ajuda a explicar sensações intuitivas conhecidas como “frio na barriga” ou “pressentimentos”.

Além disso, bactérias intestinais parecem produzir neurotransmissores capazes de influenciar circuitos cerebrais relacionados à tomada de decisões e às interações sociais.

A ideia de que emoções e escolhas podem ser moldadas também pelo intestino parecia absurda há alguns anos. Hoje, ela já ocupa espaço sério dentro da neurociência moderna.

Criatividade, descanso e devaneios podem virar armas contra a IA

Enquanto algoritmos aprendem padrões e automatizam tarefas, a criatividade humana continua sendo um território difícil de replicar. E Hannah Critchlow acredita que muita gente desperdiça justamente os momentos em que o cérebro se torna mais criativo.

Segundo ela, cerca de 20% do nosso dia é gasto em estado de divagação mental — aqueles períodos em que a mente vagueia sem foco específico. Embora frequentemente vistos como distração improdutiva, esses momentos podem ser fundamentais para o surgimento de novas ideias.

O cérebro humano esconde uma vantagem que máquinas ainda não conseguem copiar
© pexels

A neurocientista explica que caminhadas na natureza ajudam a estimular ondas cerebrais alfa, associadas a estados mentais mais criativos e relaxados. Não por acaso, muitos insights históricos surgiram em momentos de descanso.

O sono também desempenha papel essencial. Especialmente naquela fase entre estar acordado e adormecer, quando o cérebro entra em um estado fragmentado e altamente associativo.

Critchlow lembra até de Thomas Edison, que segurava objetos metálicos enquanto cochilava. Quando o item caía e fazia barulho, ele despertava rapidamente para anotar ideias que surgiam naquele estado mental incomum.

Além disso, a pesquisadora reforça a importância do exercício físico para o cérebro. Atividades físicas ajudam na criação de novos circuitos neurais e aumentam a flexibilidade cognitiva — algo essencial em uma época marcada por mudanças constantes.

No centro de tudo está a chamada bioenergética: o funcionamento das mitocôndrias, responsáveis por gerar energia para as células. Dormir bem, praticar exercícios e reduzir ultraprocessados podem melhorar diretamente a capacidade cerebral de adaptação, aprendizado e criatividade.

No fim, a grande conclusão da cientista é quase paradoxal: quanto mais o mundo acelera, mais importante se torna fortalecer aquilo que nos torna humanos.

[Fonte: BBC]

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