A Europa entrou em uma nova fase na corrida pelo hidrogênio verde. Depois de anos marcados por anúncios e projetos no papel, o continente começou a tirar do papel 12 dos maiores empreendimentos industriais dedicados à produção de hidrogênio renovável, com investimentos estimados em cerca de € 13 bilhões.
Juntos, os projetos somam aproximadamente 3 gigawatts (GW) de capacidade de eletrólise e representam um dos maiores esforços já realizados para transformar o hidrogênio verde em uma solução comercial para reduzir as emissões da indústria pesada.
Distribuídos entre Suécia, Espanha, Alemanha, Países Baixos, França, Áustria e Portugal, os empreendimentos fornecerão hidrogênio renovável para setores como siderurgia, refino de petróleo, indústria química, produção de amônia, e-metanol, combustíveis sintéticos e combustível sustentável de aviação (SAF). Além disso, servirão de base para futuras redes de transporte e armazenamento que formarão o mercado europeu de hidrogênio.
A Europa passa da promessa para a construção

Durante os últimos anos, centenas de projetos de hidrogênio verde foram anunciados em toda a Europa. Muitos, porém, ficaram travados por dificuldades de financiamento ou pela demora na obtenção de licenças ambientais.
O cenário agora começa a mudar. Os 12 complexos já estão em construção, indicando que o hidrogênio renovável finalmente avança para uma etapa de implantação em larga escala.
O maior deles é o Stegra, localizado em Boden, na Suécia. Com capacidade prevista de 700 MW e investimentos próximos de € 7 bilhões, o complexo será o maior projeto integrado de hidrogênio verde da Europa voltado à produção de aço de baixa emissão de carbono.
A instalação combinará eletrólise, geração de energia renovável e uma usina siderúrgica baseada em ferro de redução direta, substituindo o carvão por hidrogênio no processo industrial. O objetivo é provar que a fabricação de aço — responsável por cerca de 7% das emissões globais de CO₂ — pode ocorrer praticamente sem emissões em escala comercial.
Espanha fortalece sua posição estratégica
A Espanha aparece como o segundo maior polo desses investimentos graças a dois projetos de destaque.
O principal é o Moeve Onuba, instalado no Energy Park La Rábida, em Huelva. Desenvolvido pela antiga Cepsa, o empreendimento constitui a primeira fase do Vale Andaluz do Hidrogênio Verde.
O projeto prevê inicialmente um eletrolisador de 300 MW, com possibilidade de expansão para 400 MW, após investimentos superiores a € 1 bilhão.
Segundo a empresa, cerca de 90% das obras de preparação do terreno já foram concluídas. A unidade abastecerá refinarias, indústrias químicas e a produção de combustíveis de baixo carbono. No futuro, o complexo pretende atingir 2 GW de capacidade na Andaluzia, transformando a região em um dos maiores centros produtores de hidrogênio verde do sul da Europa.
Outro projeto espanhol é o Green Hydrogen Hub Petronor, integrante do Corredor Basco do Hidrogênio. Desenvolvido pela Petronor e pela Repsol, o complexo terá capacidade de 100 MW e investimentos próximos de € 300 milhões para atender o parque industrial da região de Bilbao e impulsionar a produção de combustíveis sintéticos.
Alemanha lidera em número de projetos

Embora a Suécia concentre o maior empreendimento individual, a Alemanha é o país com o maior número de iniciativas entre os 12 projetos analisados.
Um dos destaques é o Emden Clean Hydrogen Coastline, desenvolvido pela EWE AG, que terá capacidade de 320 MW para abastecer a indústria do norte alemão.
O complexo será conectado a sistemas subterrâneos de armazenamento e à futura rede nacional de gasodutos para hidrogênio, tornando-se um importante centro logístico do combustível renovável.
Outro projeto estratégico é o GET H2 Nukleus, com 300 MW de capacidade e investimentos superiores a € 1 bilhão. Além da produção de hidrogênio verde, o empreendimento prevê a construção de dutos dedicados, armazenamento em cavernas de sal e conexões diretas com siderúrgicas e refinarias.
Também avançam no país o REFHYNE II, que fornecerá hidrogênio renovável para a refinaria Rheinland, da Shell, e o Hamburg Green Hydrogen Hub, instalado na antiga usina termelétrica de Moorburg para abastecer a região metropolitana de Hamburgo.
Rotterdam reforça liderança logística
Nos Países Baixos, o Porto de Roterdã consolida sua posição como um dos principais polos europeus do hidrogênio verde.
Ali está sendo construído o Holland Hydrogen I, da Shell, com capacidade de 200 MW e investimentos próximos de € 500 milhões. A planta utilizará energia proveniente de parques eólicos offshore e será conectada por um gasoduto de 32 quilômetros à refinaria de Pernis, substituindo o hidrogênio produzido atualmente a partir de gás natural.
Na mesma região também avança o ELYgator, liderado pela Air Liquide. O eletrolisador de 200 MW integrará o Rotterdam Hydrogen Valley e fornecerá hidrogênio renovável ao maior complexo petroquímico da Europa, além de favorecer o comércio transfronteiriço de hidrogênio com outros países do norte europeu.
França, Áustria e Portugal ampliam a rede
A França participa com o projeto Normand’Hy, desenvolvido pela Air Liquide. A planta de 200 MW fornecerá hidrogênio renovável para a refinaria da TotalEnergies na Normandia, reduzindo significativamente as emissões associadas ao refino de petróleo.
Na Áustria, a OMV e a Masdar constroem a Bruck an der Leitha Green Hydrogen Plant, com capacidade de 140 MW. A unidade utilizará energia eólica, solar e hidrelétrica para substituir gradualmente o hidrogênio cinza empregado na refinaria de Schwechat.
Portugal completa o grupo com o projeto Galp Sines, um eletrolisador de 100 MW integrado à modernização do complexo industrial de Sines. A instalação produzirá hidrogênio renovável para o refino, combustíveis sintéticos e combustível sustentável para aviação, consolidando uma das principais estratégias portuguesas para descarbonizar sua indústria energética.
[ Fonte: El Periódico de la Energía ]