O centro da Via Láctea, lar do buraco negro supermassivo Sagitário A*, sempre foi considerado uma região de intensa atividade. No entanto, um novo estudo traz uma visão ainda mais intrigante: essa área pode conter uma quantidade de buracos negros de massa estelar muito maior do que se imaginava, suficiente para destruir sistematicamente as estrelas que se formam ali. Os cientistas estão chamando esse fenômeno de “triturador de estrelas”.
Uma população invisível de buracos negros
Durante muito tempo, astrônomos tentaram estimar quantos buracos negros de massa estelar existem ao redor de Sagitário A*. Modelos conservadores falavam em cerca de 300 apenas na região mais próxima. Mas um novo estudo publicado na revista Astronomy & Astrophysics aponta que esse número pode ser imensamente maior — chegando a até 100 milhões de buracos negros por parsec cúbico (aproximadamente 3,26 anos-luz).
Essa população oculta foi deduzida com base em colisões entre estrelas e buracos negros e nos efeitos observáveis causados por essas interações, como o desaparecimento de estrelas massivas do tipo O na região central da galáxia.
Como o “triturador de estrelas” funciona
A ideia central é que, por ser uma região rica em gás e poeira, o centro da Via Láctea favorece o nascimento de estrelas grandes, como as do tipo O e B. Essas estrelas vivem pouco e explodem como supernovas, deixando para trás buracos negros. Com o tempo, esse ciclo se repete inúmeras vezes, acumulando buracos negros em grande quantidade.
Esses buracos negros, por sua vez, passam a interagir com novas estrelas em formação. Muitas dessas colisões resultam na destruição gradual das estrelas, alimentando ainda mais esse ambiente caótico e denso. Daí o apelido de “triturador de estrelas”, uma metáfora sombria para um processo astronômico real.
O tempo de colisão: uma pista estatística
Para estimar a quantidade de buracos negros, os pesquisadores utilizaram o conceito de “tempo de colisão” — o tempo médio que uma estrela leva para colidir com um buraco negro, dependendo da densidade da região e do tamanho da estrela. Estrelas maiores, como as do tipo O, têm mais chance de colidir com um buraco negro.
A ausência dessas estrelas no centro galáctico, contrastando com sua presença em outras regiões da Via Láctea, reforça a ideia de que estão sendo destruídas. Já estrelas menores, como as do tipo B, são mais numerosas ali, o que indica que têm menor probabilidade de serem afetadas.
Um cemitério estelar… e uma catapulta cósmica
Outro efeito curioso previsto por esse modelo é a presença de estrelas hipervelozes — estrelas que se movem tão rápido que estão deixando a galáxia. Cerca de uma dúzia delas já foi observada, e uma das possíveis explicações para essas velocidades extremas é o encontro com buracos negros no centro galáctico.
Esses encontros poderiam lançar estrelas para fora da Via Láctea, como se fossem catapultadas. Isso reforça ainda mais a ideia de que há uma densidade anormalmente alta de buracos negros naquela região.
Conclusão:
O novo estudo sugere que o centro da Via Láctea está se tornando um cemitério de estrelas, onde buracos negros se acumulam e devoram suas vizinhas mais brilhantes. A existência de um “triturador de estrelas” muda nossa compreensão sobre a evolução galáctica e reforça o mistério em torno do núcleo da nossa galáxia — uma zona invisível, mas de poder imensurável.
Fonte: Meteored