Com as recentes disputas econômicas entre duas das maiores potências mundiais, o Brasil surge como beneficiário direto em termos de exportações agrícolas. No entanto, especialistas alertam que esse cenário favorável no comércio exterior pode ter consequências graves para o meio ambiente, especialmente em biomas sensíveis como o Cerrado e a Amazônia.
A guerra tarifária e a oportunidade para o agronegócio brasileiro

A imposição de tarifas superiores a 200% nas trocas entre Estados Unidos e China vem enfraquecendo a presença norte-americana no mercado chinês. Com isso, cresce a expectativa de que o agronegócio brasileiro amplie sua fatia de exportações, especialmente de soja, milho, algodão, carne bovina e frango.
Segundo Camila Amigo, analista do Conselho Empresarial Brasil-China (CEBC), o crescimento pode ser expressivo a curto prazo, tal como já aconteceu entre 2018 e 2019, durante a primeira onda de tarifas sob o governo de Donald Trump. Naquela época, o Brasil assumiu parte considerável do mercado de soja antes dominado pelos EUA.
Pressão sobre a logística e os preços internos
O aumento das exportações pode gerar impactos internos imediatos. A infraestrutura logística do Brasil, marcada por estrangulamentos em portos, rodovias e ferrovias, tende a enfrentar congestionamentos, elevando os custos de transporte. Além disso, os preços dos alimentos no mercado interno, que já subiam acima da inflação desde a pandemia, podem sofrer novas pressões.
Expansão agrícola e o fantasma da deflorestação

Historicamente, a expansão das exportações agrícolas brasileiras tem sido associada ao aumento do desmatamento, especialmente no Cerrado e na Amazônia. Paulo Barreto, do Instituto Amazônico para os Povos e o Meio Ambiente (Imazon), alerta que a demanda adicional pode estimular novas frentes de desmatamento caso as práticas atuais persistam.
Entre 1995 e 2004, a necessidade de atender à crescente demanda por soja e carne levou a um salto no desmatamento amazônico. Agora, com a possível nova escalada nas exportações, teme-se que o ciclo se repita.
Liderança brasileira no mercado chinês
Desde as primeiras tensões comerciais em 2017, o Brasil consolidou sua posição como principal fornecedor agrícola da China. Em 2018, ultrapassou os EUA, exportando US$ 37 bilhões em produtos agrícolas para o país asiático. As exportações de carne bovina aumentaram oito vezes entre 2016 e 2024, enquanto as vendas de soja cresceram 88%.
Mesmo assim, analistas como Camila Amigo avaliam que o impacto atual será menor, já que o Brasil já ocupa uma posição consolidada. A disputa, no entanto, permanece imprevisível, e a vantagem brasileira pode ser apenas temporária.
Mais demanda por carne, mais risco ambiental
A criação de gado é o principal motor da deflorestação na Amazônia, responsável por cerca de 90% da perda florestal. Apesar de 70% da carne bovina brasileira ser consumida internamente, um aumento súbito na demanda pode incentivar produtores menores a expandir pastagens de maneira irregular, invadindo terras indígenas ou quilombolas.
Niklas Weins, da Universidade Xi’an Jiaotong-Liverpool, destaca que o real desvalorizado aumenta ainda mais a competitividade das exportações brasileiras, reforçando a pressão sobre os ecossistemas.
Caminhos sustentáveis e os desafios persistentes
Apesar dos riscos, existem iniciativas para promover a agricultura sustentável, como o Plano ABC+ e o Programa Nacional de Recuperação de Pastagens Degradadas. Nathália Teles, da Universidade Federal de Goiás, afirma que a deflorestação se torna cada vez menos viável economicamente graças a maior fiscalização e custos ambientais.
Contudo, Barreto ressalta falhas graves nas políticas públicas: vastas terras públicas sem destinação protegida, falta de rastreamento eficaz do gado e créditos rurais que ainda financiam atividades ligadas ao desmatamento. Mesmo instituições como o BNDES, acionista da gigante JBS, pouco controlam riscos ambientais.
Pressão internacional pode mudar o cenário
Para Barreto, há uma solução possível: se a China incluir exigências ambientais nos requisitos de importação de carne bovina, seria possível estimular práticas mais sustentáveis no Brasil sem a necessidade de novos desmatamentos. A pressão internacional, portanto, pode ser uma chave para equilibrar crescimento econômico e preservação ambiental.
Fonte: Dialogue Earth