Muito além de ser apenas uma extensão gelada no extremo sul, o oceano Antártico atua como um pulmão azul do planeta, absorvendo cerca de 40% do dióxido de carbono emitido pelas atividades humanas. No entanto, estudos recentes sugerem que esse sumidouro de carbono pode estar em risco. Mudanças na salinidade e na temperatura das águas estão criando uma barreira que retém o CO₂, mas cuja estabilidade depende de condições climáticas cada vez mais incertas.
O oceano que respira pelo mundo
Segundo uma pesquisa publicada na Nature Climate Change pelo Alfred Wegener Institute (AWI), liderada por Léa Olivier e F. Alexander Haumann, o fenômeno conhecido como freshening — redução da salinidade na superfície — fortaleceu temporariamente a capacidade do oceano austral de reter carbono. Essa camada superficial mais doce e fria age como uma “barreira invisível”, dificultando que o CO₂ profundo alcance a atmosfera.
Uma barreira natural sob ameaça
A equipe analisou cinco décadas de dados hidrográficos da região polar sul, incluindo medições de salinidade, temperatura e dióxido de carbono coletadas em expedições internacionais. Os resultados mostram que a diferença de densidade entre as águas superficiais e profundas — chamada de estratificação — funciona como um bloqueio.
Essa estratificação impede que as águas profundas, ricas em carbono, subam até a superfície. Porém, o equilíbrio é extremamente delicado. “Essa água superficial mais doce compensou temporariamente o enfraquecimento do sumidouro de carbono”, explicou Olivier. “Mas se a estratificação diminuir, o CO₂ preso poderá escapar de volta para a atmosfera”.
O equilíbrio frágil do sumidouro austral
Desde os anos 1990, a camada de Winter Water perdeu até 0,3 unidades de salinidade, enquanto as massas mais profundas, conhecidas como Upper Circumpolar Deep Water, subiram cerca de 40 metros em direção à superfície, aumentando sua temperatura em 0,2 °C.
Esse cenário cria uma espécie de “tampão”: uma camada fria que bloqueia a saída do CO₂, e logo abaixo, um reservatório cada vez mais quente e rico em carbono, pronto para escapar caso haja uma mudança brusca.
Os cientistas alertam que o fortalecimento dos ventos de oeste pode intensificar a mistura vertical do oceano, rompendo a barreira e liberando grandes volumes de gás para a atmosfera.
O futuro do “pulmão do sul”
Para Haumann, o oceano Antártico continua sendo uma das regiões mais críticas e menos monitoradas da Terra. O estudo destaca a necessidade de ampliar as medições, especialmente no inverno austral, quando as massas de água tendem a se misturar mais.
As conclusões reforçam que a capacidade do oceano austral de moderar o aquecimento global depende de um equilíbrio físico extremamente sensível. Se esse escudo natural enfraquecer, o planeta perderá um de seus maiores aliados contra o excesso de carbono — um risco que coloca em xeque o papel do oceano Antártico como guardião climático da Terra.