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O filme que transforma o amor em produto e revela um dilema que vai além dos relacionamentos modernos

Em Amores Materialistas, Celine Song explora o amor no contexto da era dos aplicativos de namoro, onde expectativas irreais e conexões superficiais convivem com o desejo genuíno de afeto. Com Dakota Johnson, Pedro Pascal e Chris Evans, a trama mistura romance, reflexão e ironia sobre o que significa se relacionar hoje.
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Tempo de leitura: 4 minutos

Depois de emocionar o público com Vidas Passadas, Celine Song retorna com um olhar afiado para os relacionamentos no século 21. Em Amores Materialistas, a diretora se volta ao impacto da tecnologia e das exigências modernas no amor, questionando se a busca pelo parceiro ideal nos aproxima ou nos afasta da conexão verdadeira. A comédia romântica, ambientada na vibrante Nova Iorque, carrega humor, charme e uma reflexão sobre o que realmente esperamos do outro.

Amor sob medida: quando pessoas viram requisitos

O filme que transforma o amor em produto e revela um dilema que vai além dos relacionamentos modernos
© https://x.com/ovalle_tiamo

A protagonista, Lucy (Dakota Johnson), é uma casamenteira de sucesso que trabalha para uma empresa especializada em formar casais com base em preferências minuciosas — altura, idade, salário, gostos pessoais e até detalhes absurdamente específicos. É como se fosse um Tinder humano, mas com um toque corporativo e muito controle sobre quem deve encontrar quem.

O problema? Todos os clientes parecem ter listas intermináveis de exigências, mas pouco se questionam sobre o que têm a oferecer em troca. É nesse cenário que Lucy começa a rever suas próprias convicções, especialmente quando dois homens cruzam seu caminho: Harry (Pedro Pascal), milionário e impecável em todos os quesitos “vendáveis” de um parceiro, e John (Chris Evans), um antigo conhecido que não se encaixa em nenhum padrão pré-estabelecido — exceto no carisma natural, que, no caso do ator, é impossível ignorar.

Essa dicotomia não é apenas uma escolha amorosa, mas também um reflexo de como o amor tem sido tratado como um bem material, sujeito a filtros e “curadorias” que, muitas vezes, ignoram a essência das pessoas.

O amor como produto e o peso da modernidade

O filme que transforma o amor em produto e revela um dilema que vai além dos relacionamentos modernos
© https://x.com/ovalle_tiamo

Logo na abertura, Celine Song cria um paralelo divertido e instigante entre como as relações começaram na pré-história e como funcionam agora, numa era de globalização e acesso constante à vida alheia pelas redes. Se antes a sobrevivência guiava as escolhas, hoje o mercado de encontros vende a ideia de que sempre existe “alguém melhor” a apenas um deslizar de dedo.

A diretora também expõe a contradição contemporânea: nunca houve tantas opções e, ao mesmo tempo, nunca nos sentimos tão sozinhos. Aplicativos de relacionamento reúnem milhões de usuários, mas as relações acontecem mais tarde, os casamentos são adiados e o compromisso parece mais complexo do que nunca.

Lucy, no meio desse cenário, é obrigada a confrontar a ideia de que, ao contrário dos bens materiais, pessoas não podem ser moldadas para atender demandas exatas — e isso não diminui seu valor. Ainda assim, o filme não se aprofunda tanto quanto poderia nos bastidores desse trabalho, deixando de lado a oportunidade de explorar o lado mais curioso da função da personagem.

Entre o charme e o clichê

Ao desenvolver os relacionamentos de Lucy com Harry e John, Celine Song opta por uma construção leve, quase de conto de fadas moderno, que lembra comédias românticas clássicas como Como Perder um Homem em Dez Dias. Pedro Pascal, no auge de sua popularidade, encarna o par perfeito com uma naturalidade que torna a escolha de Lucy ainda mais intrigante — e difícil. Chris Evans, por outro lado, oferece o contraponto descontraído, ainda que seja difícil acreditar nele como um “homem comum”.

O enredo, contudo, acaba cedendo a soluções previsíveis. A narrativa abre espaço para reflexões originais, mas deixa algumas ideias de lado para se apoiar em resoluções conhecidas do gênero. Isso não significa que o clichê não funcione — na verdade, ele reforça o ponto de que, por mais que mudem as ferramentas e os códigos sociais, certos padrões emocionais permanecem.

Uma comédia romântica com sabor atual

Amores Materialistas se equilibra entre a crítica social e o romance carismático. O filme começa com um tom levemente pessimista, mas se transforma, aos poucos, em uma história calorosa, sustentada pelo carisma do trio de protagonistas. Dakota Johnson entrega uma performance que transita entre o humor despretensioso e a sensibilidade, enquanto Pedro Pascal e Chris Evans adicionam química e presença.

A ambientação em Nova Iorque, com seu clima cosmopolita e descolado, complementa a atmosfera da trama, tornando-a reconhecível e próxima para quem vive ou observa a dinâmica das grandes cidades. Celine Song mostra que entende de sentimentos e, mesmo sem atingir a profundidade de Vidas Passadas, oferece uma obra envolvente, que convida o público a refletir sobre as exigências e concessões no amor.

No fim, Amores Materialistas confirma que, apesar de toda a tecnologia, dos filtros e da infinidade de opções, o maior desafio continua sendo o mesmo de sempre: encontrar alguém que nos veja além da lista de requisitos — e que nos aceite, com ou sem manual de instruções.

[Fonte: Adoro Cinema]

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