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Ciência

O Google acaba de colocar chips de IA no espaço e o verdadeiro objetivo vai muito além de um satélite

Um pequeno satélite carregando chips de inteligência artificial acaba de chegar à órbita. O experimento pode ajudar a decidir onde funcionarão alguns dos data centers do futuro.
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Tempo de leitura: 4 minutos

A explosão da inteligência artificial trouxe um problema que cresce junto com os modelos: onde encontrar energia suficiente para alimentar uma infraestrutura computacional cada vez maior? Enquanto empresas constroem data centers gigantescos na Terra, o Google decidiu testar uma alternativa muito mais radical. A companhia acaba de colocar parte de sua tecnologia de IA em órbita para descobrir se, no futuro, algumas dessas máquinas poderiam simplesmente deixar o planeta.

Um data center que começa com apenas quatro chips

O experimento faz parte do Project Suncatcher, iniciativa de pesquisa anunciada pelo Google em 2025 para investigar a possibilidade de construir infraestrutura de aprendizado de máquina no espaço.

O primeiro passo já está acontecendo. Um satélite experimental apelidado de MVP foi lançado em 1º de outubro a partir da Base da Força Espacial de Vandenberg, na Califórnia, a bordo de um foguete Falcon 9 da SpaceX. Ele integrou a missão compartilhada Transporter-18, que transportou dezenas de outras cargas para a órbita terrestre.

Dentro do equipamento, aproximadamente do tamanho de uma geladeira, estão quatro TPUs, os processadores especializados desenvolvidos pelo Google para executar tarefas de inteligência artificial. É uma capacidade minúscula quando comparada aos milhares de aceleradores encontrados em grandes instalações terrestres, mas suficiente para testar uma questão fundamental.

Os chips conseguem funcionar de maneira confiável no espaço?

O Google confirmou que estabeleceu contato com o satélite e que o equipamento está operando como esperado. Nas próximas semanas, os engenheiros acompanharão como o hardware reage à radiação, às variações térmicas e às condições extremas da órbita.

O Sol é uma das grandes razões para olhar para cima

O Google acaba de colocar chips de IA no espaço e o verdadeiro objetivo vai muito além de um satélite
© Pexels

Colocar computadores no espaço parece uma maneira extraordinariamente complicada de resolver um problema terrestre. Existe, porém, uma vantagem difícil de ignorar: energia solar abundante.

Segundo o Google, satélites em determinadas configurações de órbita baixa podem aproveitar luz solar quase continuamente e gerar até oito vezes mais energia solar do que painéis equivalentes instalados na superfície terrestre.

Essa possibilidade se torna particularmente atraente quando observamos o crescimento do consumo elétrico associado à inteligência artificial.

A visão de longo prazo do Project Suncatcher, apresentada pelo próprio Google, prevê constelações de satélites equipados com processadores de IA e grandes painéis solares. Em vez de trabalhar isoladamente, essas máquinas poderiam funcionar como partes de um gigantesco computador distribuído em órbita.

Mas transformar essa visão em realidade exige resolver problemas que simplesmente não existem da mesma maneira na Terra.

No espaço, até resfriar um chip vira um desafio

Processadores de IA produzem muito calor. Em um data center convencional, sistemas de ventilação e, em muitos casos, circuitos com líquidos ajudam a transportar essa energia térmica.

No vácuo espacial, não existe ar para cumprir essa função.

Por isso, o protótipo utiliza mecanismos destinados a conduzir o calor até radiadores capazes de liberá-lo para o espaço. Segundo informações divulgadas sobre a missão, os chips do MVP não poderão operar continuamente em potência elevada: depois de determinados períodos de atividade, precisarão esfriar.

A radiação representa outro obstáculo. Raios cósmicos e partículas energéticas podem provocar erros nos componentes eletrônicos, incluindo os chamados bit flips, nos quais informações binárias mudam inesperadamente.

Antes do lançamento, TPUs Trillium foram submetidas a testes com feixes de prótons no Crocker Nuclear Laboratory, da Universidade da Califórnia em Davis. Os resultados indicaram resistência a uma dose total de radiação superior à esperada durante uma missão espacial de cinco anos, embora testes reais em órbita continuem sendo indispensáveis.

O próximo teste será ainda mais ambicioso

Fazer um computador funcionar em órbita é apenas parte do problema. Para criar algo parecido com um verdadeiro data center espacial, centenas ou milhares de processadores precisariam trocar enormes quantidades de informação rapidamente.

A solução estudada pelo Google envolve comunicação óptica por laser entre satélites próximos.

O desafio é manter conexões extremamente rápidas enquanto os equipamentos viajam pela órbita a milhares de quilômetros por hora. A empresa pretende avançar nessa etapa em 2027, quando planeja testar dois satélites trabalhando em conjunto.

O estudo técnico por trás do projeto chegou a analisar conceitualmente um agrupamento de 81 satélites dentro de uma área com cerca de um quilômetro de raio. O próprio trabalho reconhece, entretanto, que o custo dos lançamentos continuará sendo decisivo para determinar se esse modelo algum dia será economicamente competitivo.

Data centers terrestres não devem desaparecer

Mesmo que a tecnologia funcione, dificilmente todos os serviços digitais migrariam para o espaço.

Aplicações que precisam responder imediatamente aos usuários continuam se beneficiando de servidores fisicamente próximos. Já treinamento de modelos de IA, simulações e outros processos capazes de tolerar maior latência poderiam ser candidatos mais naturais para infraestrutura orbital.

Existem ainda problemas como lixo espacial, manutenção, substituição de componentes e obsolescência. Processadores de IA avançam rapidamente, enquanto satélites normalmente são projetados para permanecer anos em funcionamento.

Por enquanto, portanto, o pequeno MVP não é um data center espacial. É um laboratório em órbita.

Mas o experimento marca uma mudança importante. A discussão sobre como alimentar a próxima geração da inteligência artificial já não está limitada a descobrir onde construir instalações maiores na Terra. Algumas das maiores empresas de tecnologia começaram a considerar seriamente se parte dessa infraestrutura poderia funcionar centenas de quilômetros acima de nossas cabeças.

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