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Tecnologia

O experimento do Google parece pequeno, mas pode esconder um plano gigantesco para a IA

Os centros de dados estão consumindo cada vez mais energia e espaço. Agora, uma das maiores empresas de tecnologia quer testar uma alternativa que parece saída de um filme de ficção científica.
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Tempo de leitura: 4 minutos

Os processadores de inteligência artificial normalmente vivem em ambientes quase perfeitos: temperatura controlada, fornecimento constante de energia e sistemas de refrigeração projetados para impedir que o hardware superaqueça. Fora desses centros de dados, a história muda completamente. Ainda assim, o Google está prestes a colocar seus próprios chips em um ambiente onde calor, radiação e vibrações fazem parte da rotina.

O primeiro teste vai muito além de colocar um chip em um foguete

A inteligência artificial exige cada vez mais capacidade computacional, e isso significa construir mais servidores, mais centros de dados e uma infraestrutura energética gigantesca para mantê-los funcionando.

É nesse contexto que surge o Project Suncatcher, iniciativa do Google que pretende investigar uma possibilidade incomum: levar parte da infraestrutura necessária para executar IA para fora da Terra.

O primeiro passo, porém, é bem mais modesto.

Em 1º de outubro, um protótipo deverá viajar ao espaço na missão compartilhada Transporter-18, da SpaceX, em parceria com a Planet. O objetivo inicial não é construir um centro de dados orbital, mas descobrir se os chips responsáveis por parte da computação de IA do Google conseguem simplesmente sobreviver à viagem e às condições encontradas em órbita.

E não será uma tarefa trivial.

Durante o lançamento, os componentes eletrônicos podem enfrentar forças dezenas de vezes maiores que a gravidade terrestre. Depois, precisam lidar com partículas energéticas provenientes do Sol e dos raios cósmicos, capazes de provocar erros nos transistores e corromper dados.

Há ainda um problema particularmente complicado: no espaço não existe ar para transportar o calor para longe dos componentes.

O espaço já colocou esses chips à prova — mas só no laboratório

Antes de mandar o hardware para a órbita, os engenheiros do Google tentaram reproduzir na Terra algumas das condições que os processadores encontrarão no espaço.

As TPUs Trillium foram submetidas a fortes vibrações nos três eixos para simular as condições do lançamento. Em outro experimento, os chips receberam bombardeio de prótons no Crocker Nuclear Laboratory, da Universidade da Califórnia em Davis, enquanto executavam cargas de inteligência artificial.

Segundo o Google, a dose de radiação utilizada foi superior àquela que os componentes acumulariam durante cinco anos em órbita.

O objetivo era descobrir se os processadores conseguiriam continuar funcionando mesmo quando expostos a um dos principais inimigos da eletrônica espacial.

A temperatura também exige uma solução diferente daquela utilizada em um centro de dados convencional. Sem atmosfera, não é possível simplesmente usar o ar para transportar o calor produzido pelos componentes.

Por isso, o projeto está testando sistemas como heat pipes e radiadores, capazes de conduzir a energia térmica até superfícies que possam liberá-la por radiação.

Agora vem a parte que nenhuma simulação terrestre consegue reproduzir completamente: colocar tudo isso em órbita e observar o comportamento real.

O pequeno satélite esconde uma ideia muito maior

Se o primeiro teste funcionar, o objetivo do Suncatcher não será simplesmente colocar alguns computadores no espaço.

A visão de longo prazo envolve grupos de satélites equipados com TPUs e conectados entre si por enlaces ópticos de altíssima capacidade. Em uma órbita sincronizada com o Sol, esses equipamentos poderiam receber luz solar durante grande parte do tempo.

O Google estima que painéis solares em órbita possam produzir até oito vezes mais energia do que uma instalação equivalente na superfície terrestre.

A ideia seria transformar esses satélites em uma espécie de infraestrutura computacional distribuída ao redor do planeta.

O próximo passo já está sendo planejado. Em 2027, a empresa pretende colocar dois satélites em órbita para testar comunicações a laser de grande largura de banda entre eles.

O desafio será enorme: os dois objetos estarão se deslocando a milhares de quilômetros por hora e ainda precisarão manter um feixe extremamente preciso entre si. O próprio Google compara a dificuldade a acertar uma moeda a quilômetros de distância.

Mesmo que essa comunicação funcione, entretanto, ainda restará uma pergunta muito mais difícil.

Fazer funcionar é uma coisa. Fazer sentido é outra

Colocar chips de IA em órbita pode ser tecnicamente possível. Transformar isso em uma alternativa economicamente viável para os centros de dados terrestres é um problema completamente diferente.

O Google calcula que uma infraestrutura espacial desse tipo poderia começar a competir economicamente com instalações na Terra caso o custo de lançamento caia para menos de aproximadamente US$ 200 por quilograma em meados da década de 2030.

Esse número ainda está muito distante da realidade atual.

Também existem questões que vão muito além do preço do foguete: como reparar equipamentos em órbita? Quanto tempo os satélites conseguiriam funcionar? O que fazer com unidades que chegarem ao fim da vida útil? Como evitar o aumento do lixo espacial? E, principalmente, como dissipar o gigantesco volume de calor produzido por uma infraestrutura de computação em escala?

Por isso, o equipamento que será lançado agora está muito longe de ser um centro de dados espacial.

Na verdade, ele representa algo mais interessante: o Google está colocando seus chips de IA fora do ambiente cuidadosamente controlado para o qual foram projetados.

Se eles sobreviverem, a empresa terá respondido à primeira pergunta.

A segunda — se é possível transformar essa ideia em uma verdadeira infraestrutura de IA no espaço — será muito mais difícil de responder.

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