A indústria de semicondutores procura constantemente memórias menores, rápidas, eficientes e capazes de suportar operações repetidas sem perder desempenho. Uma das candidatas mais curiosas utiliza materiais com uma estrutura cristalina chamada wurtzita, mas havia um problema importante: quanto mais o dispositivo era utilizado, maior era a degradação. Agora, pesquisadores chineses encontraram uma forma de atacar justamente o mecanismo que estava por trás desse desgaste.
Uma estrutura cristalina pode mudar o futuro da memória
A wurtzita não é um elemento químico, mas uma estrutura cristalina que determinados materiais podem assumir. Entre eles está o nitreto de alumínio e escândio, conhecido como AlScN, que vem despertando interesse no desenvolvimento de memórias ferroelétricas.
Esses materiais conseguem manter diferentes estados de polarização elétrica. Na prática, essas diferenças podem representar os zeros e uns utilizados pela computação digital.
Existe outra característica especialmente interessante: a polarização pode permanecer mesmo depois que a alimentação elétrica é interrompida. Isso abre espaço para memórias não voláteis, capazes de conservar informações sem depender continuamente de energia.
O AlScN chama atenção ainda por sua elevada polarização remanente e pelo potencial de produzir dispositivos menores e eficientes.
Mas havia uma barreira considerável para transformar essa promessa em tecnologia prática. Os materiais começam a perder suas propriedades depois de serem submetidos repetidamente a ciclos de escrita.
Quanto mais operações são realizadas, maior pode ser o desgaste. E, para uma memória destinada a equipamentos eletrônicos, essa limitação é um problema difícil de ignorar.
O defeito microscópico que estava sabotando o material
Pesquisadores da Universidade de Xidian, na China, investigaram o que acontece dentro do material durante seu funcionamento e chegaram a um dos principais suspeitos: as chamadas vacâncias de nitrogênio.
Essas vacâncias são defeitos na estrutura cristalina. Quando o dispositivo é submetido continuamente a campos elétricos, elas podem se deslocar e se acumular.
Esse movimento aparentemente microscópico acaba interferindo nas propriedades do material. Com o tempo, o resultado é uma degradação que reduz a vida útil da memória.
A equipe decidiu então modificar a arquitetura do dispositivo em vez de simplesmente aceitar esse comportamento.
Os pesquisadores desenvolveram uma super-rede formada por camadas alternadas de AlScN e nitreto de alumínio (AlN). A ideia é criar uma estrutura capaz de confinar as vacâncias de nitrogênio e limitar sua movimentação.
Em outras palavras, o avanço não depende apenas de tornar o material mais resistente. A estratégia tenta controlar diretamente um dos mecanismos responsáveis por sua degradação.
O teste que colocou a tecnologia em outro patamar
O resultado foi significativo: a nova estrutura conseguiu ultrapassar 10 bilhões de ciclos de escrita mantendo suas propriedades ferroelétricas.
Os pesquisadores também utilizaram um protocolo chamado recuperação dinâmica. Durante o funcionamento, o sistema introduz determinados períodos de recuperação elétrica.
Esses intervalos funcionam como pequenos momentos de estabilização. Eles permitem que alguns dos defeitos produzidos durante os ciclos de escrita sejam reorganizados e ajudam a prolongar a vida útil do dispositivo.
O número alcançado é particularmente relevante porque a durabilidade sempre esteve entre os principais obstáculos das memórias ferroelétricas baseadas em wurtzita.
Não é, porém, a primeira demonstração desse tipo de resistência. No início de 2026, outro grupo de pesquisadores já havia alcançado valores semelhantes utilizando capacitores ferroelétricos extremamente pequenos baseados em AlScN.
A diferença está na abordagem da equipe de Xidian: em vez de apenas demonstrar que o material pode suportar uma quantidade gigantesca de ciclos, os pesquisadores propõem uma arquitetura voltada diretamente para controlar uma das causas da degradação.
Ainda falta transformar o laboratório em produto
Apesar do resultado impressionante, isso não significa que memórias de wurtzita estejam prestes a substituir tecnologias consolidadas como DRAM, NAND ou HBM.
Ainda existem desafios importantes envolvendo fabricação em larga escala, densidade de armazenamento, consumo de energia e velocidade de operação.
Mas superar a marca de 10 bilhões de ciclos remove uma barreira importante para uma tecnologia que ainda está em estágio experimental.
E existe uma dimensão estratégica nesse avanço. A China vem investindo fortemente em tecnologias próprias de semicondutores para reduzir sua dependência de fornecedores estrangeiros.
Se as memórias ferroelétricas baseadas em wurtzita conseguirem avançar do laboratório para a fabricação comercial, dominar uma parte dessa tecnologia desde suas primeiras etapas poderá oferecer ao país uma posição relevante em uma possível nova geração de chips.
Por enquanto, o resultado não representa uma revolução imediata no mercado. Mas mostra que um dos pontos mais frágeis dessa tecnologia pode estar começando a deixar de ser um obstáculo.