Quem nunca se encolheu ao puxar um pedaço de fita adesiva do rolo? O som estridente parece exagerado para algo tão banal. Mas a física revela que há um fenômeno surpreendente por trás desse ruído. Um novo estudo mostra que, ao se desprender, a fita não se solta suavemente: ela se rompe em fraturas microscópicas que viajam em velocidades próximas ao dobro da velocidade do som.
Um objeto simples que intriga físicos há décadas
A fita adesiva transparente foi criada em 1930 pelo engenheiro Richard G. Drew, combinando óleos, borracha e resinas sobre uma base de celofane. Desde então, tornou-se item cotidiano — e objeto inesperado de curiosidade científica.
Em 1939, pesquisadores descobriram que, ao ser desenrolada no escuro, a fita emite um brilho azulado. O fenômeno, chamado triboluminescência, ocorre devido ao acúmulo de cargas elétricas e à ruptura súbita da cola — o mesmo princípio que faz diamantes brilharem quando são cortados.
Já em 1953, cientistas russos observaram que, ao ser puxada no vácuo, a fita pode até produzir raios X. A separação de cargas opostas durante o descolamento faz elétrons saltarem em alta velocidade entre a parte adesiva e o suporte.
Mas o mistério do som agudo permaneceu sem explicação completa.
Fraturas que correm mais rápido que o som
Pesquisadores liderados por Sigurdur Thoroddsen, da King Abdullah University of Science and Technology, já haviam registrado em 2010 fraturas transversais se propagando pela fita em velocidades supersônicas. Em 2024, outro estudo confirmou a ligação entre essas fraturas e o ruído, mas ainda faltava entender o mecanismo exato.
Agora, o novo trabalho — publicado na revista Physical Review Letters — utilizou duas câmeras ultrarrápidas e microfones sincronizados para capturar simultaneamente as fraturas e o som produzido.
Os resultados revelam que a fita não se desprende de forma uniforme. Em vez disso, rompe-se em faixas estreitas que avançam lateralmente pela superfície adesiva. Essas fraturas se movem entre 250 e 600 metros por segundo — velocidades que se aproximam do dobro da velocidade do som no ar.
Como surgem os “mini booms” sônicos
À medida que a fratura avança, forma-se um pequeno vazio entre a fita e o rolo. Como o movimento é extremamente rápido, o ar não consegue preencher imediatamente esse espaço.
Esse vazio se desloca junto com a fratura até alcançar a borda da fita. Quando isso acontece, ele colapsa abruptamente no ar estacionário ao redor, liberando um pulso sonoro.
Esse pulso é o que percebemos como o característico “grito” da fita.
Em outras palavras, cada puxão gera uma série de microexplosões acústicas — minúsculos booms sônicos produzidos em escala microscópica.
Física no cotidiano
O estudo demonstra como fenômenos aparentemente triviais escondem processos físicos complexos. O que parece apenas um som irritante envolve mecânica de fraturas, dinâmica de fluidos e ondas de choque.
Na próxima vez que o barulho da fita fizer você estremecer, lembre-se: não é apenas cola sendo puxada. É uma sequência de fraturas supersônicas produzindo pequenos estrondos invisíveis — um espetáculo microscópico de alta velocidade acontecendo na palma da sua mão.