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Ciência

Físicos identificam partículas que não são nem bósons nem férmions e ampliam o “terceiro reino” da mecânica quântica

Durante décadas, a física dividiu o mundo quântico entre bósons e férmions. Agora, novos estudos mostram que essa fronteira pode ser ainda mais flexível: pesquisadores descreveram um sistema unidimensional onde partículas intermediárias — os anyons — podem existir de forma ajustável.
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Tempo de leitura: 3 minutos

Se você mergulhar até o nível mais fundamental da matéria, tudo parece obedecer a uma regra simples: as partículas elementares pertencem a duas categorias bem definidas. De um lado, os bósons; do outro, os férmions. Essa divisão é um dos pilares da mecânica quântica.

Mas a natureza raramente é tão binária quanto gostaríamos. Pesquisadores do Okinawa Institute of Science and Technology (OIST) e da Universidade de Oklahoma acabam de propor um cenário em que essa classificação clássica deixa de ser suficiente. Em dois artigos publicados na revista Physical Review A, eles descrevem a possibilidade de anyons em sistemas unidimensionais — expandindo um território quântico que até pouco tempo parecia restrito a duas dimensões.

Bósons, férmions e a regra do spin

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© DaveMF via Shutterstock

No nosso espaço tridimensional, partículas são classificadas de acordo com seu spin quântico.

Bósons — como o fóton e o bóson de Higgs — possuem spin inteiro. Eles podem ocupar o mesmo estado quântico ao mesmo tempo. É por isso que partículas de luz conseguem se sobrepor sem restrições.

Férmions — como elétrons e prótons — têm spin semi-inteiro. Eles obedecem ao princípio de exclusão de Pauli: dois férmions idênticos não podem ocupar o mesmo estado simultaneamente. Essa regra é o que impede que você atravesse o chão neste exato momento.

Essa dicotomia parecia completa. Até que surgiram os anyons.

O surgimento do “terceiro reino”

Os anyons foram previstos teoricamente há cerca de 50 anos pelo físico Frank Wilczek. Diferentemente de bósons e férmions, eles não se limitam a dois valores fixos de comportamento estatístico. Em vez disso, ocupam um intervalo contínuo entre essas duas categorias.

Por muito tempo, acreditou-se que só poderiam existir em sistemas bidimensionais. Em 2020, experimentos com materiais ultrafinos confirmaram sua presença em semicondutores de espessura atômica.

Agora, o novo estudo sugere que a fronteira pode ser ainda mais flexível.

A quebra da divisão binária em uma dimensão

Os pesquisadores Thomas Busch e Raúl Hidalgo-Sacoto, do OIST, junto com Doerte Blume, da Universidade de Oklahoma, analisaram o chamado “fator de troca” — um parâmetro matemático que descreve o que acontece quando duas partículas trocam de posição.

Em três dimensões, esse fator precisa obedecer a uma regra rígida: seu quadrado deve ser igual a 1. Isso significa que ele só pode assumir dois valores possíveis, +1 (bósons) ou -1 (férmions).

Em duas dimensões, a situação já se torna mais rica. O fator pode assumir qualquer valor contínuo entre -1 e 1 — justamente o que define os anyons.

O avanço agora é mostrar que, em uma dimensão, essa divisão também pode ser quebrada. Como as partículas em um sistema unidimensional têm movimento extremamente restrito, elas inevitavelmente precisam “atravessar” umas às outras. Esse comportamento altera o fator de troca e permite estatísticas intermediárias ajustáveis.

Anyons ajustáveis e novas possibilidades

O estudo não apenas indica a possibilidade de anyons unidimensionais, mas também apresenta uma “receita” teórica para ajustá-los. A estatística de troca poderia ser controlada por parâmetros como a intensidade das interações de curto alcance entre as partículas.

Isso abre uma nova janela para investigar propriedades fundamentais da mecânica quântica e pode ter implicações em áreas como computação quântica topológica, onde anyons são considerados candidatos promissores para armazenamento robusto de informação.

O que isso muda na física?

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Embora ainda seja um resultado teórico, a proposta amplia o mapa conceitual da física quântica. Se confirmados experimentalmente, anyons unidimensionais reforçariam a ideia de que a distinção clássica entre bósons e férmions não é absoluta — mas emergente das condições espaciais.

A pergunta levantada pelos próprios pesquisadores resume o impacto da descoberta: se o Universo parece dividir todas as partículas em duas categorias, por que não haver outras?

Ao explorar esse novo canto do chamado “terceiro reino”, os físicos não apenas expandem as fronteiras da teoria quântica, mas também desafiam nossa intuição sobre como a realidade fundamental está organizada.

E, como quase sempre acontece na física, quanto mais profundamente olhamos, menos simples o mundo parece ser.

 

[ Fonte: Esquire ]

 

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