A temporada do amor está no ar novamente, mas este ano traz um aniversário especial: faz exatamente um ano que a teia de Madame Web ousou nos conectar, muitas vezes apesar de si mesma. Nos últimos 12 meses, passei a apreciar a vibe de filme de época cafona que Madame Web encontrou em meio a tantos problemas evidentes de produção, tornando-se uma opção confortável que eu assistiria com prazer no lugar de muitas outras produções contemporâneas do gênero de super-heróis. Então, para celebrar esse amor, neste dia tão especial, quero apenas falar sobre a coisa que Madame Web mais ama.
Carros. Roubar carros. E depois atropelar pessoas com esses carros. Bem, principalmente uma pessoa específica que merece ser atropelada várias vezes ao longo de Madame Web.
Não sei o que inspirou os criadores de Madame Web a fazer dos veículos motorizados um elemento temático central em um filme de quadrinhos ambientado em 2003 sobre uma personagem relacionada ao Homem-Aranha, cuja principal característica nos quadrinhos era ser velha, cega e ter habilidades premonitórias. Mas quem quer que tenha tido essa ideia, mergulhou de cabeça: desde o momento inicial, Madame Web é essencialmente um filme sobre carros sendo usados para atingir pessoas, sejam eles roubados ou não. Uma das primeiras ações de Cassie Web no filme é quase atropelar Mattie Franklin com sua ambulância — um dos raros casos em que o quase homicídio veicular acontece sem intenção. Seus poderes despertam no local de um acidente de carro, e sua primeira tentativa de salvar alguém com essas habilidades resulta na morte da pessoa devido a outro acidente.
E isso acontece antes mesmo de Cassie começar a roubar veículos. O mais próximo que Madame Web tem de um herói é o táxi nova-iorquino que ela rouba para levar suas jovens protegidas em segurança, fugindo da ira de Ezekiel Sims. O carro se torna uma espécie de veículo recorrente ao longo do filme, especialmente após Cassie usá-lo para atropelar Sims em um restaurante. Tudo culmina no ato final, no que talvez seja o momento mais próximo de uma cena tradicional de super-herói no filme: uma síntese de veículo roubado e agressão motorizada, quando Cassie mergulha com uma ambulância (também roubada) através de um anúncio da Calvin Klein direto em Sims, impedindo-o de matar as três futuras garotas-aranha. A escolha da ambulância não é aleatória: é o veículo que ela usa em seu trabalho como técnica de emergência médica. Mas o fato de ser roubada é apenas uma decisão bizarra que Madame Web decidiu adotar. E o impacto tem um sabor de revanche, já que é a segunda vez que ela atropela Sims, como se tivesse aperfeiçoado seu ataque definitivo — um ataque chamado “carro”.
O que torna o amor de Madame Web por carros roubados e sua utilização como armas tão cativante, apesar de sua natureza absurda, é o fato de atender a dois propósitos. O primeiro é que Madame Web é um filme de super-heróis sobre uma personagem cujos poderes são mentais, não físicos. Cassie apenas tem visões de futuros possíveis; ela não move objetos com a mente nem possui força ou agilidade sobre-humanas. O filme precisa substituir as tradicionais cenas de luta por algo mais crível, condizente com o que uma pessoa normal faria para enfrentar um antagonista com habilidades físicas superiores. A opção de usar carros como arma, embora inusitada, oferece esse ponto de ancoragem.
O segundo propósito está relacionado ao charme peculiar de Madame Web. O filme, em sua essência, é uma carta de amor ao estilo dos filmes de super-heróis de 2003 — com tudo de bom e ruim que isso implica. Foi uma época em que a tecnologia e o público ainda não estavam preparados para abraçar plenamente o potencial dos quadrinhos no cinema. Assim, surgiram produções que tentavam equilibrar o fantástico com uma base realista, criando um subgênero com sucessos como X-Men e Homem-Aranha, mas também com fracassos como Demolidor e Mulher-Gato. Madame Web pertence mais a esse segundo grupo, pois é um filme que evita mergulhar de cabeça no material de origem e prefere adotar uma abordagem realista, resultando em uma protagonista cujo superpoder mais marcante é localizar um veículo, roubá-lo e depois atropelar alguém com ele.
Madame Web pode não ter seguido a fórmula de fazer um “bom filme” para todos. Mas me faz rir toda vez que se torna mais um filme sobre carros do que sobre o multiverso do Homem-Aranha ou super-heróis em geral. Um ano após seu lançamento — e à sombra de mais um grande filme de super-herói que luta para escapar da fadiga desse gênero em declínio —, sempre vou amar esse detalhe peculiar.