Imaginar o que Steve Jobs pensaria ao entrar em uma Apple Store em 2026 é um exercício impossível, mas existe outra maneira de observar seu legado. Basta procurar quais decisões tomadas durante sua liderança sobreviveram aos últimos 15 anos. A empresa cresceu, diversificou seus negócios, trocou novamente de CEO e entrou na corrida da inteligência artificial. Mesmo assim, uma filosofia continua aparecendo por trás de seus produtos — e talvez esteja diante de seu maior teste.
O iPhone transformou uma ideia de Jobs na espinha dorsal da Apple
Steve Jobs fundou a Apple em 1976 ao lado de Steve Wozniak e Ronald Wayne. Saiu da companhia em 1985 e retornou mais de uma década depois, quando a empresa enfrentava um período crítico.
Foi nessa segunda passagem que boa parte da identidade da Apple moderna ganhou forma.
Uma das principais obsessões de Jobs era controlar a experiência completa do usuário. Não bastava criar um computador poderoso: hardware, software, interface e design deveriam funcionar como partes inseparáveis de um único produto.
O iPod levou essa ideia ao mercado de música digital. O iPhone, apresentado em 2007, ampliou drasticamente sua escala.
Navegação na internet, música, câmera e comunicação foram reunidas em uma tela sensível ao toque. Depois vieram aplicativos e um ecossistema cada vez maior.
Hoje, mesmo cercado por Apple Watch, AirPods, pagamentos, assinaturas e serviços digitais, o iPhone continua ocupando uma posição central na estratégia da companhia.
Mas a Apple responsável por administrar esse ecossistema tornou-se muito diferente daquela que Jobs deixou em 2011.
Quando ele morreu, em 5 de outubro daquele ano, Tim Cook estava havia poucas semanas no comando.
Nos 15 anos seguintes, Cook não tentou reproduzir a personalidade de seu antecessor. Em vez disso, construiu sua própria versão da empresa.

Tim Cook tornou a Apple maior — e 2026 trouxe outra troca histórica no comando
Durante sua gestão, a companhia ampliou a importância dos serviços e assinaturas, expandiu categorias de dispositivos e fortaleceu uma gigantesca operação global de produção e distribuição.
A eficiência operacional se tornou uma das marcas dessa fase.
Em abril de 2026, porém, começou outra transição. Cook passou ao cargo de presidente executivo e John Ternus assumiu como CEO em 1º de setembro.
Ternus chegou à Apple em 2001 e construiu grande parte de sua carreira na engenharia de hardware, área que liderava antes de assumir o comando da companhia.
A mudança acontece justamente quando o principal desafio tecnológico já não está limitado a produzir um smartphone ou computador melhor.
A nova fronteira é a inteligência artificial generativa.
A Apple apresentou em 2026 uma nova geração da Siri integrada ao Apple Intelligence, com maior capacidade para compreender contexto pessoal e executar tarefas mais complexas.
Mas a implementação ainda encontra obstáculos.
Na União Europeia, por exemplo, a nova Siri com recursos de IA continua indisponível no iPhone e no iPad em meio a questões regulatórias relacionadas à Lei dos Mercados Digitais. A própria companhia ainda não estabeleceu uma data para disponibilizar todos esses recursos nesses dispositivos na região.
Isso coloca Ternus diante de uma questão que vai além de simplesmente acompanhar concorrentes em modelos de IA.
A maior herança de Jobs talvez não seja um produto, mas aquilo que o usuário não precisa perceber
Steve Jobs nunca viu o Apple Watch, os AirPods modernos ou a explosão dos grandes modelos generativos.
Por isso, procurar seu legado em uma lista de dispositivos específicos pode ser enganoso.
Uma continuidade mais profunda está na ideia de que a complexidade tecnológica deve ficar escondida atrás de uma experiência simples.
É justamente aí que a inteligência artificial se torna um teste particularmente interessante.
Os sistemas atuais envolvem modelos gigantescos, servidores remotos, processamento local, contexto pessoal, diferentes níveis de privacidade e novas formas de interação baseadas em linguagem.
O usuário, porém, não necessariamente quer pensar em nenhuma dessas camadas. Ele quer pedir algo e obter o resultado.
Quinze anos depois da morte de Jobs, portanto, a Apple mudou de tamanho, liderança, produtos e prioridades.
O que permanece é uma pergunta que atravessou essas transformações: a empresa ainda consegue pegar uma tecnologia extremamente complexa e fazê-la parecer simples para quem está do outro lado da tela?
Com a IA chegando ao centro dos dispositivos pessoais, essa talvez seja a maneira mais concreta de descobrir quanto da filosofia de Steve Jobs ainda existe na Apple de 2026.