No dia 19 de janeiro, o James Webb Space Telescope passou 17 horas ininterruptas observando Urano — tempo suficiente para acompanhar uma rotação completa do planeta. O objetivo era investigar como temperatura e partículas carregadas variam em sua atmosfera superior. O resultado: o retrato mais detalhado já feito das auroras do gigante de gelo.
O estudo, publicado na revista Geophysical Research Letters, oferece novas pistas sobre como o campo magnético excêntrico de Urano influencia o comportamento energético em suas camadas mais altas.
Um campo magnético fora do padrão
Urano sempre foi considerado um dos planetas mais estranhos do Sistema Solar. Seu eixo de rotação é inclinado em mais de 90 graus, o que faz o planeta praticamente “girar de lado”. Mas a excentricidade não para por aí: seu eixo magnético está inclinado cerca de 60 graus em relação ao eixo de rotação.
Esse desalinhamento cria uma magnetosfera altamente irregular. Diferentemente da Terra, onde as auroras se concentram perto dos polos magnéticos relativamente estáveis, em Urano elas se deslocam de maneira muito mais complexa.
As novas observações do Webb detectaram duas faixas brilhantes de aurora próximas aos polos magnéticos, além de uma região intermediária com redução significativa na densidade de íons e emissões. Isso sugere que as linhas do campo magnético canalizam partículas carregadas de maneira desigual pela atmosfera.
Mapeamento tridimensional inédito
A equipe internacional utilizou o instrumento NIRSpec (Near-Infrared Spectrograph) do Webb para mapear temperatura e densidade de íons cerca de 5.000 quilômetros acima do topo das nuvens de Urano.
Segundo Paola Tiranti, doutoranda da Universidade de Northumbria e autora principal do estudo, é a primeira vez que a atmosfera superior do planeta pôde ser observada em três dimensões.
A sensibilidade do Webb permitiu rastrear como a energia se move verticalmente pela atmosfera e identificar a influência direta do campo magnético assimétrico.
As auroras em Urano foram detectadas pela primeira vez pelo Hubble Space Telescope em 2012. Desde então, cientistas tentam entender como a magnetosfera peculiar do planeta molda esses fenômenos luminosos.
Um mundo cada vez mais frio
O único encontro próximo com Urano ocorreu em 24 de janeiro de 1986, quando a sonda Voyager 2 realizou um sobrevoo histórico. Na época, registrou temperaturas na atmosfera superior inferiores a -214 °C.
Os novos dados do Webb confirmam que o planeta continua esfriando. As medições indicam temperaturas aproximadamente 150 °C mais baixas do que as registradas em observações anteriores.
Esse resfriamento de longo prazo intriga pesquisadores e sugere que o balanço energético do planeta é mais complexo do que se imaginava.
Por que isso importa
Compreender a estrutura vertical e o fluxo de energia em Urano não é apenas uma curiosidade sobre um planeta distante. Gigantes de gelo como Urano e Netuno são comuns em outros sistemas estelares. Entender sua dinâmica ajuda a interpretar observações de exoplanetas semelhantes.
Ao revelar em detalhes como o campo magnético influencia a atmosfera e as auroras de Urano, o Webb fornece peças fundamentais para compreender a física desses mundos.
Urano pode parecer um “esquisitão” do Sistema Solar. Mas, graças ao olhar persistente do James Webb, ele está ajudando a explicar como funcionam planetas gigantes em toda a galáxia.