Quando falamos em mudanças na rotação da Terra, geralmente pensamos em forças naturais como terremotos ou derretimento de geleiras. Mas um estudo da NASA mostrou que uma obra de engenharia feita pelo homem — a represa das Três Gargantas, na China — também teve efeito mensurável. O deslocamento colossal de massa de água provocado pelo reservatório teria alterado de forma mínima, mas real, o ritmo de rotação do planeta.
A grandiosidade da represa chinesa

Localizada sobre o rio Yangtzé, a represa das Três Gargantas é considerada a maior usina hidrelétrica do mundo e uma das construções mais impressionantes já erguidas. São mais de 2 km de extensão, 185 metros de altura e uma capacidade de armazenamento de 40 km³ de água, equivalente a 40 bilhões de litros.
O projeto levou 13 anos para ser concluído e custou cerca de US$ 22,5 bilhões, segundo dados oficiais. Além de abastecer milhões de pessoas com energia limpa — mais de 22.500 megawatts, superior à produção elétrica de muitos países —, a represa também cumpre papel estratégico no controle de enchentes que historicamente devastaram cidades da região.
Como uma represa pode afetar a rotação da Terra?
O princípio é o mesmo que explica a dança de um patinador no gelo. Quando ele recolhe os braços, acelera o giro; quando os estende, desacelera. A Terra, como corpo em rotação, responde de forma semelhante a grandes deslocamentos de massa.
Segundo o geofísico Benjamin Fong Chao, do Jet Propulsion Laboratory da NASA, qualquer evento que mova massa significativa — do degelo de calotas polares ao enchimento de reservatórios artificiais — pode influenciar o eixo terrestre. No caso da represa chinesa, a imensa quantidade de água acumulada em uma região próxima ao equador teria provocado um ligeiro atraso na rotação do planeta.
A variação estimada é de 0,06 microssegundos por dia. É imperceptível para a vida cotidiana, mas detectável com instrumentos científicos de alta precisão.
Impactos reais ou exagero?
Embora o efeito pareça alarmante quando apresentado em manchetes, os especialistas ressaltam que a alteração não representa risco direto para a humanidade. Ainda assim, o dado é simbólico: mostra como atividades humanas em escala gigantesca podem deixar marcas até mesmo em processos naturais de proporções planetárias.
Para os cientistas, o caso serve como alerta sobre o poder acumulado da engenharia moderna e da manipulação em larga escala de recursos naturais. “É fundamental estudar como nossas ações afetam o planeta, mesmo que em níveis quase imperceptíveis”, destacou Chao.
O cenário hipotético do “giro ao contrário”
E se a Terra realmente invertesse sua rotação? Embora não exista nenhuma evidência de que isso possa ocorrer por causas humanas, o exercício teórico levanta cenários catastróficos.
Segundo o físico Alejandro Farah Simón, em entrevista à National Geographic, uma inversão completa poderia gerar mudanças abruptas no clima, temperaturas extremas, fenômenos oceânicos devastadores, além de terremotos e erupções em cadeia. O impacto social seria igualmente dramático, forçando a humanidade a reorganizar fronteiras, economias e populações inteiras.
Muito além da energia limpa
A represa das Três Gargantas simboliza o paradoxo das megaconstruções. Por um lado, fornece energia renovável em escala sem precedentes e protege milhões de pessoas contra inundações. Por outro, representa um exemplo de como intervenções humanas podem ter efeitos colaterais globais inesperados.
O armazenamento de água nesse nível é comparável ao peso de cidades inteiras, deslocado para uma única região do planeta. Se a alteração na rotação terrestre é quase imperceptível, a lição é clara: quanto mais grandiosas forem nossas obras, mais atenção precisaremos dar às consequências invisíveis.
[ Fonte: El Cronista ]