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Tecnologia

O lado oculto do algoritmo: por que tantos criadores pensam em desistir

Um novo relatório revela que a maioria dos criadores já cogitou abandonar as redes. Por trás do brilho da creator economy, cresce um desgaste silencioso.
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Tempo de leitura: 3 minutos

Ser criador de conteúdo virou sinônimo de visibilidade, liberdade e até sucesso financeiro — pelo menos na superfície. Nos bastidores, porém, a realidade é bem mais complexa. Um novo estudo mostra que a pressão por engajamento, a instabilidade de renda e a dependência dos algoritmos estão levando muitos profissionais ao limite. O que parecia uma profissão dos sonhos começa a revelar sinais claros de esgotamento estrutural.

Exaustão vira rotina entre criadores

O lado oculto do algoritmo: por que tantos criadores pensam em desistir
© Pexels

Mais da metade dos criadores de conteúdo já pensou em abandonar a carreira, segundo o Creator Report 2025, da Manychat. O índice chega a 55% entre integrantes da Geração Z, indicando que o desgaste atinge especialmente quem entrou mais recentemente na creator economy.

Para o influenciador Sou Will, a ideia de que trabalhar com redes sociais é simples não corresponde à realidade. Ele afirma que o cansaço é praticamente inevitável, sobretudo para quem produz conteúdo com planejamento editorial e estratégia.

O problema, segundo ele, não é apenas a resposta do público, mas o papel dos algoritmos na distribuição do conteúdo. Investir tempo, dinheiro e energia em um vídeo que depois não alcança audiência por fatores externos gera sensação de invalidação e alimenta uma autocrítica constante.

Especialistas ouvidos pelo estudo indicam que esse não é um fenômeno isolado. Para Flavia Rosário, diretora-geral da Manychat Brasil, os números apontam para um desgaste estrutural da atividade. Ela destaca que 86% do público já percebe os criadores como menos autênticos, sinal de que a lógica de produção em massa também afeta a relação com a audiência.

Quando a pressão nunca desliga

O burnout entre criadores não nasce de um único fator. Segundo Rosário, ele resulta da combinação entre pressão algorítmica, instabilidade financeira e excesso de tarefas operacionais.

Além de criar, muitos profissionais precisam planejar, gravar, editar, responder comentários e gerenciar parcerias — uma rotina contínua, sem pausas claras. A exigência por constância agrava o cenário: o algoritmo premia quem publica com frequência e se adapta rapidamente às tendências.

Do ponto de vista clínico, a psicóloga Pamela Magalhães explica que esse ambiente favorece o adoecimento. Diferentemente do estresse comum, o burnout envolve esgotamento emocional, físico e mental persistente, acompanhado de perda de sentido no trabalho.

Ela destaca que a lógica das plataformas transforma presença em obrigação permanente. Tudo passa a ser medido por métricas, criando um estado de vigilância constante que dificulta o descanso real.

Visibilidade alta, renda incerta

Apesar da exposição, a estabilidade financeira continua sendo um desafio. O relatório aponta que quase três em cada quatro criadores ganham menos de US$ 10 mil por ano com a atividade.

Entre perfis menores, a pressão é ainda maior. Muitos acumulam múltiplas funções e sentem mais fortemente a falta de retorno financeiro. Não por acaso, dois dos principais motivos para cogitar desistir são justamente a percepção de que “não estava dando certo” e a baixa monetização.

Sou Will reconhece que o crescimento de audiência acaba se tornando quase obrigatório para garantir sustentabilidade econômica — mesmo quando o criador tenta não se guiar apenas pelos números.

O custo invisível de estar sempre online

Outro fator crítico é a sensação de que o criador nunca pode se desconectar. Segundo Magalhães, a lógica do algoritmo gera ansiedade antecipatória, medo de errar e dificuldade real de descanso.

Ela própria, que também atua nas redes, relata sentir culpa quando reduz o ritmo de publicação. Com o tempo, a pausa passa a ameaçar a própria percepção de relevância e identidade profissional.

Esse estado permanente de alerta tem efeitos concretos: perda de tempo de descanso, impacto no sono, redução de momentos com família e aumento da sobrecarga emocional.

Para muitos criadores, surge ainda o chamado “gap de engajamento” — quando métricas aparentemente boas não se traduzem em retorno financeiro ou crescimento consistente. Nesse cenário, o algoritmo passa a ser visto como uma força imprevisível e difícil de controlar.

Um modelo sob pressão

Diante dos dados, cresce o debate sobre a sustentabilidade da creator economy no formato atual. Para Flavia Rosário, o modelo precisa evoluir para reduzir o desgaste e devolver tempo criativo aos profissionais.

Já Pamela Magalhães faz um alerta direto: quando números começam a definir autoestima, humor e identidade, é sinal de que algo não vai bem.

Mesmo assim, muitos criadores seguem tentando encontrar equilíbrio. Como resume Sou Will, manter o ritmo atual significa viver constantemente cansado — uma balança que, para muitos, começa a parecer cada vez mais difícil de sustentar.

[Fonte: Techtudo]

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