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Ciência

Ansiedade financeira: economia é hoje o maior medo global, aponta pesquisa

Uma pesquisa global revela que, em países ricos ou pobres, a economia se tornou a principal fonte de preocupação — mas as razões variam e dizem muito sobre cada sociedade.
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Tempo de leitura: 3 minutos

Independentemente do continente ou do nível de desenvolvimento, há um sentimento que se repete: insegurança econômica. O custo de vida, o medo do desemprego e a dificuldade de planejar o futuro passaram a ocupar o centro das angústias coletivas. Um levantamento internacional mostra que essa ansiedade não é isolada — ela é global. E, no Brasil, ganha contornos ainda mais intensos.

A economia como principal fonte de inquietação

Ansiedade financeira: economia é hoje o maior medo global, aponta pesquisa
© Pexels

Pesquisa do Instituto Gallup realizada em 107 países indica que, na mediana global, 23% da população aponta questões econômicas como o maior desafio enfrentado por seus países. Em 71 das nações analisadas, o tema ocupa o topo das preocupações.

O cenário é particularmente forte na América Latina, onde renda, emprego e custo de vida pesam de forma direta no cotidiano das famílias. Logo atrás da economia aparecem temas como mercado de trabalho (10%), política e governança (8%) e segurança pública (7%).

O estudo mostra que, em países de baixa renda, a ansiedade econômica é ainda mais intensa. Enquanto 21% dos entrevistados em países ricos mencionam dificuldades financeiras como principal problema, o índice sobe para 38% nas nações mais pobres.

Nos contextos de menor renda, a preocupação vai além de inflação ou juros — envolve garantir necessidades básicas como alimentação e moradia. Já em economias mais desenvolvidas, o foco recai sobre o custo de vida elevado e a erosão do poder de compra.

A América Latina apresenta um quadro particular: além das dificuldades econômicas, a segurança pública surge como segunda maior inquietação, refletindo desigualdades históricas e desafios estruturais.

O caso brasileiro: inflação, dívida e informalidade

Embora a média global seja de 23%, especialistas apontam que no Brasil a percepção de crise tende a ser mais elevada. O economista Otto Nogami, do Insper, identifica três fatores centrais: inflação de itens essenciais, alto endividamento das famílias e informalidade no mercado de trabalho.

Segundo ele, o impacto da inflação é mais sentido quando atinge bens inelásticos — alimentos, energia e transporte. Mesmo que índices oficiais indiquem controle geral, o aumento do preço do arroz ou do combustível gera sensação imediata de empobrecimento.

Outro elemento é o perfil do endividamento brasileiro. Diferentemente de países onde dívidas muitas vezes financiam consumo supérfluo, aqui grande parte das famílias se endivida para cobrir despesas básicas. Isso cria um estado permanente de alerta financeiro.

A informalidade, que atinge quase 40% da força de trabalho, amplia a insegurança. Sem garantias como seguro-desemprego ou FGTS, qualquer oscilação econômica se transforma em ameaça direta.

Há ainda uma relação estreita entre economia e segurança pública. Custos com proteção privada, perdas por roubo e fechamento de pequenos negócios impactam tanto trabalhadores quanto empresários, criando um ciclo de fragilidade econômica.

Juventude sob pressão e frustração estrutural

O recorte etário da pesquisa revela outro ponto sensível: jovens sentem mais intensamente a ansiedade econômica. Globalmente, 34% das pessoas entre 15 e 34 anos apontam a economia como principal problema, contra 30% entre maiores de 55 anos.

Mesmo em países desenvolvidos, jovens relatam dificuldades de inserção no mercado, acesso à moradia e estabilidade profissional. No Brasil, o desemprego juvenil historicamente mais alto e o crescimento de trabalhos precarizados reforçam essa sensação.

O estudo também destaca que questões relacionadas ao trabalho — desemprego e qualidade das vagas — são a segunda preocupação global mais citada. Em economias de renda média-baixa, esse índice chega a 20%.

Outro ponto levantado é o descompasso entre indicadores macroeconômicos e a experiência cotidiana da população. Crescimento do PIB nem sempre se traduz em melhoria perceptível no padrão de vida. Quando moradia se torna inacessível e o crédito imobiliário é restritivo, o crescimento agregado perde significado prático.

Além disso, política e governança aparecem como terceira maior preocupação global. Em países mais ricos, esse tema ganha peso à medida que necessidades básicas são atendidas, deslocando o foco para qualidade institucional.

O relatório conclui que as pessoas tendem a avaliar governos a partir de problemas tangíveis. Quando não conseguem pagar aluguel ou sentem que seus filhos terão menos oportunidades, a ansiedade econômica deixa de ser estatística — e se torna experiência cotidiana.

[Fonte: Correio Braziliense]

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