O TikTok se consolidou como uma das redes sociais mais populares do mundo, especialmente entre jovens. Mas uma apuração recente acendeu um alerta sobre o que também pode circular por trás do feed aparentemente inofensivo. Perfis que exaltam o nazismo — às vezes de forma direta, outras de maneira codificada — continuam surgindo na plataforma. O fenômeno levanta dúvidas sobre moderação algorítmica, responsabilidade digital e os limites da legislação.
Como conteúdos extremistas continuam aparecendo
A investigação começou após a denúncia de um leitor, que relatou ter encontrado perfis suspeitos por meio de vídeos de alerta publicados por outros usuários. Segundo o relato, depois de interagir com um desses conteúdos, o próprio algoritmo passou a recomendar materiais semelhantes com frequência crescente.
Ao longo de quatro semanas de monitoramento, foram identificadas ao menos 62 contas que publicaram conteúdos de exaltação ao nazismo. Em menos de três dias de navegação, vídeos, memes e imagens com esse tipo de referência passaram a surgir repetidamente na aba “Para você”.
O padrão observado chamou atenção: quanto mais a investigação avançava, mais perfis similares apareciam no feed. Além disso, muitos posts acumulavam comentários favoráveis à ideologia extremista.
Procurada, a plataforma informou que removeu conteúdos que violavam suas Diretrizes da Comunidade e reiterou que não permite a promoção de ideologias de ódio ou supremacia.
Estratégias para driblar moderação e lei
Grande parte das publicações identificadas não utiliza referências totalmente explícitas. Em vez disso, recorre a hashtags, emojis, siglas e símbolos que funcionam como códigos internos.
Especialistas classificam esse mecanismo como “dog whistle” — um tipo de mensagem com duplo sentido: aparentemente neutra para o público geral, mas facilmente reconhecida por quem compartilha da mesma ideologia. Esse recurso ainda oferece uma espécie de “negação plausível”, dificultando a responsabilização direta.
Pesquisadoras de discurso de ódio ouvidas pela reportagem avaliam que muitos desses conteúdos podem, sim, configurar apologia ao nazismo, mesmo quando tentam se camuflar.
Segundo elas, os autores costumam evitar símbolos proibidos ou termos explícitos justamente para permanecer em uma zona cinzenta do ponto de vista jurídico. Isso torna a comprovação de intenção um dos principais desafios para autoridades e plataformas.
Perfis espalhados por vários países
As contas identificadas publicavam em diferentes idiomas, incluindo português, mas nem sempre é possível determinar a localização real dos responsáveis. Diferentemente de outras redes, o TikTok não exibe publicamente o país de origem dos perfis.
Ferramentas externas de estimativa indicaram que parte das contas estaria no Brasil, enquanto outras foram associadas a países como Estados Unidos, Alemanha, Reino Unido, Polônia e Arábia Saudita.
Entre os exemplos encontrados havia desde posts aparentemente irônicos até conteúdos claramente elogiosos ao regime nazista. Alguns vídeos acumulavam centenas de milhares de visualizações e dezenas de milhares de curtidas.
Também foi identificada uma tendência em que usuários faziam referências indiretas à morte de Adolf Hitler, atribuindo conotação positiva ao episódio — prática que, segundo especialistas, busca comunicar mensagens ideológicas de forma codificada.
Conteúdos explícitos ainda conseguem circular
Embora o uso de códigos seja predominante, a investigação também encontrou publicações abertamente extremistas. Em buscas por termos e símbolos associados a movimentos neonazistas, o próprio mecanismo da plataforma chegou a exibir alertas de possível violação — mas, mesmo assim, alguns conteúdos permaneceram acessíveis.
Entre os exemplos estavam vídeos com símbolos nazistas em movimento, bios com expressões associadas ao supremacismo branco e imagens históricas acompanhadas de mensagens elogiosas.
Em vários casos, memes e comentários reforçavam o engajamento. Imagens com referências ao regime nazista apareceram inclusive na seção de comentários de vídeos antigos, mostrando como o material pode se espalhar por diferentes camadas da plataforma.
Especialistas alertam que a circulação desses símbolos não representa apenas apologia ao nazismo, mas também discurso de ódio antissemita.
O que diz a lei brasileira
No Brasil, a apologia ao nazismo é crime previsto na Lei nº 7.716/1989. A legislação estabelece pena de reclusão e multa para quem:
- praticar, induzir ou incitar discriminação por raça, cor, etnia, religião ou origem
- fabricar, comercializar, distribuir ou divulgar símbolos associados ao nazismo
A Constituição também classifica o racismo como crime inafiançável e imprescritível — ou seja, pode ser julgado a qualquer tempo.
Juristas ouvidos na apuração afirmam que, mesmo quando há tentativa de disfarce, conteúdos desse tipo podem violar a legislação brasileira. Eles defendem que plataformas devem impedir não apenas a publicação, mas também a recomendação automática desse material.
A resposta do TikTok
Em nota, o TikTok afirmou que removeu as publicações compartilhadas pela reportagem por violarem suas regras. A empresa declarou que proíbe:
- incentivo à violência ou discriminação
- promoção de ideologias de ódio
- uso de símbolos ligados a movimentos extremistas
- negação de atrocidades históricas, como o Holocausto
A plataforma também informou que treina equipes de segurança regularmente, consulta especialistas externos e bloqueia buscas relacionadas a conteúdos de ódio.
Segundo o relatório mais recente citado pela empresa, 98,8% dos conteúdos que violaram políticas de segurança foram removidos de forma proativa, sendo 87% antes mesmo de receber visualizações.
Apesar disso, especialistas alertam que o desafio continua — especialmente diante da criatividade de grupos que buscam constantemente novas formas de burlar filtros automáticos.
[Fonte: G1]