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Ciência

O “oceano subterrâneo” que desafia a crise climática: a América do Sul guarda a maior reserva de água do planeta

Entre Brasil, Argentina e países vizinhos, cientistas identificaram um sistema aquífero colossal que poderia abastecer milhões de pessoas por séculos. A descoberta aponta para um futuro promissor diante da escassez de água, mas sua exploração descontrolada pode transformá-la em uma maldição.
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Tempo de leitura: 3 minutos

Não se trata de metáfora. Sob o solo sul-americano, pesquisadores detectaram um sistema hidrogeológico que acumula mais de 160 trilhões de metros cúbicos de água doce, volume suficiente para abastecer todo o planeta por mais de 250 anos. A dimensão é tão impressionante que recebeu o nome de Sistema Aquífero Grande Amazônico (SAGA), embora muitos já o chamem de “oceano subterrâneo”.

O mais extraordinário é que esse reservatório não se limita ao território brasileiro — seu núcleo principal —, mas também se estende para Bolívia, Peru e Argentina, onde se conecta a outro gigante invisível: o famoso Aquífero Guarani.

Entre abundância e incerteza

O “oceano subterrâneo” que desafia a crise climática: a América do Sul guarda a maior reserva de água do planeta
© Pexels – Kelly.

O anúncio, feito durante a 66ª Reunião Anual da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência, gerou tanto entusiasmo quanto preocupação. De um lado, oferece uma reserva estratégica em um mundo marcado por secas extremas, crises hídricas e disputas pela água. De outro, levanta desafios técnicos e políticos: como explorar um recurso que atravessa fronteiras, camadas geológicas complexas e profundidades ainda pouco estudadas?

Hoje, os poços chegam a no máximo 500 metros de profundidade, e a qualidade da água em níveis mais fundos permanece desconhecida. Em outras palavras, falamos de um oceano imenso, mas em grande parte inexplorado.

Argentina e o outro oceano subterrâneo

No caso argentino, o acesso se dá por meio do Aquífero Guarani, um dos maiores reservatórios do mundo, com mais de 37 mil km³ de água doce. Ele também se estende sob Paraguai, Uruguai e Brasil, formado principalmente por arenitos porosos que armazenam e movimentam água em larga escala.

Seu potencial vem sendo estudado há décadas, mas as ameaças também são conhecidas: superexploração agrícola, poluição industrial e ausência de regulação internacional consistente. Não por acaso, diversos acordos multilaterais já tentaram — com êxito limitado — garantir sua preservação.

Como foi descoberto

O “oceano subterrâneo” que desafia a crise climática: a América do Sul guarda a maior reserva de água do planeta
© Facebook / Constructora Noesis.

O ponto de partida foi o Aquífero Alter do Chão, no Pará. Ali, geólogos identificaram um depósito de 86,4 trilhões de metros cúbicos de água, que acabou se revelando apenas parte de um sistema muito maior. Com mapas e modelos hidrogeológicos mais avançados, confirmou-se que as camadas sedimentares da Amazônia escondiam um aquífero até 3,5 vezes maior que o Guarani.

Segundo o professor Ingo Daniel Wahnfried, da Universidade Federal do Amazonas, ainda é preciso desenvolver uma cartografia mais detalhada para entender a diversidade dos estratos: desde lagos fósseis e pântanos subterrâneos até formações rochosas que funcionam como barreiras naturais.

Oportunidade ou risco?

O SAGA não é apenas uma reserva de água, mas uma peça geopolítica e ambiental de proporções colossais. Ele concentra mais de 80% da água do ciclo hidrológico amazônico, enquanto rios e atmosfera respondem por apenas 8%. Isso significa que, se for mal administrado, pode comprometer não apenas o abastecimento humano, mas também os delicados equilíbrios ecológicos que sustentam a maior floresta tropical do planeta.

Em tempos de crise climática, a ideia de um “oceano invisível” sob a América do Sul soa ao mesmo tempo promissora e inquietante. Pode ser a chave para garantir água potável a milhões de pessoas nas próximas gerações, mas também uma tentação perigosa se virar alvo de exploração intensiva sem acordos internacionais firmes que assegurem sua proteção.

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