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O país europeu que “não existe”, mas tem hino, exército e até moeda própria

Transnístria não aparece nos mapas, mas tem tudo o que define um país: governo, bandeira, fronteiras e até um time de futebol que derrotou o Real Madrid. A história dessa região separatista é tão real quanto invisível aos olhos do mundo.
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Tempo de leitura: 3 minutos

Nem tudo o que parece inexistente realmente não existe. No coração da Europa Oriental, um território vive à margem da legalidade internacional, mas à luz da realidade cotidiana. Trata-se de Transnístria, uma região separatista da Moldávia que funciona como um Estado independente, embora nenhum país da ONU – nem mesmo a Rússia – o reconheça oficialmente. Conheça essa terra congelada no tempo, fiel a Moscou, com seus próprios símbolos, leis e conflitos.

Um país de fato, mas não de direito

Localizada entre a Moldávia e a Ucrânia, Transnístria surgiu como uma república autoproclamada logo após a dissolução da União Soviética, em 1990. A maioria de seus cerca de 500 mil habitantes é eslava, e o território guarda profundas raízes pró-russas. Após uma guerra contra a Moldávia entre 1992 e 1993, foi firmado um acordo de paz com o envio de tropas russas à região, que permanecem até hoje.

Apesar de não ser reconhecida oficialmente nem por Moscou, Transnístria possui governo, moeda (feita de plástico), hino, bandeira e exército próprios. Sua capital, Tiraspol, abriga as únicas “embaixadas” de Abecásia e Ossétia do Sul — dois territórios igualmente sem reconhecimento internacional. Para quem a visita, a sensação é de ter voltado aos tempos soviéticos, com monumentos de Lenin e prédios que parecem paralisados no passado.

Orgulho soviético e lealdade à Rússia

Transistania 1
© @TRANSNISTRIA_UN- Vía X

Transnístria ostenta a única bandeira no mundo que ainda traz a foice e o martelo — símbolos do comunismo. Embora, oficialmente, a região ainda faça parte da Moldávia, na prática tem fronteiras rígidas e um controle militar próprio. Um detalhe curioso: o time de futebol local, o Sheriff Tiraspol, venceu o Real Madrid em pleno Santiago Bernabéu durante a Liga dos Campeões da UEFA, em 2021.

A ligação com a Rússia vai além da simbologia. Em 2006, um referendo local — sem valor legal — mostrou que 97% da população apoiava a independência e a futura integração com a Federação Russa. Desde então, a fidelidade a Moscou se manteve firme, graças a acordos vantajosos como gás e eletricidade subsidiados e aposentadorias até 25% maiores do que as pagas na Moldávia, o país mais pobre da Europa.

Interesses moldavos e estratégia russa

Para a Moldávia, perder Transnístria significa abrir mão de 12% do território e de quase um quarto da produção industrial nacional. A região também é estratégica por controlar rotas de transporte e gasodutos. O governo moldavo acusa a Rússia de instigar a separação e violar sua neutralidade constitucional ao manter tropas estrangeiras no país desde os anos 1990.

Moscou, por sua vez, vê em Transnístria uma forma de manter influência sobre o antigo território soviético e frear o avanço do Ocidente na região. No entanto, nem todos os habitantes da república não reconhecida estão satisfeitos: opositores denunciam autoritarismo, clientelismo e corrupção generalizada como pilares do sistema político local.

O impacto da guerra na Ucrânia

Com a invasão russa da Ucrânia em fevereiro de 2022, a tensão aumentou em toda a região. A Moldávia declarou estado de emergência temendo que as tropas russas estacionadas em Transnístria fossem usadas para atacar a cidade ucraniana de Odessa, a menos de 100 km de distância.

No final de abril daquele ano, autoridades transnistrianas relataram supostos ataques ucranianos contra instalações locais — denúncias que Kiev classificou como provocações russas para arrastar a Moldávia para o conflito. O medo de que o país se tornasse o próximo alvo na expansão russa se tornou mais palpável do que nunca.

Uma nação fantasma com futuro incerto

Transnístria continua a existir num limbo diplomático: soberana aos olhos de quem vive ali, invisível para o resto do mundo. Enquanto a comunidade internacional ignora sua existência, a região segue funcionando como um Estado completo, preso entre a nostalgia soviética, a tutela russa e a desconfiança ocidental.

 

[ Fonte: Canal26 ]

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