Pular para o conteúdo

“O perigo da IA não é a máquina — é a nossa preguiça de pensar”

Enquanto o mundo discute o avanço da inteligência artificial, a jornalista e escritora espanhola Laura G. de Rivera lança um alerta simples, mas poderoso: o maior risco não está na tecnologia, e sim na estupidez humana. Seu livro Escravos do Algoritmo é um manifesto contra a dependência cega de sistemas automatizados — e um convite a recuperar algo que parece em extinção: o pensamento crítico.

A era em que os algoritmos nos conhecem melhor do que nós mesmos

Imagine que você decide sair para jantar. Seu parceiro talvez não saiba o que você quer comer, mas a IA sabe — porque à tarde você assistiu a um vídeo de tacos no Instagram. Esse tipo de comportamento, diz Rivera, mostra o quanto cedemos o controle das nossas decisões a máquinas que apenas analisam dados e padrões.

“Se não tomarmos decisões, outros as tomarão por nós”, escreve ela no livro. E quem são esses “outros”? Plataformas digitais, empresas de tecnologia e sistemas que aprendem com nossos cliques, buscas e curtidas.

Pesquisas do psicólogo Michal Kosinski, da Universidade Stanford, já mostraram que um algoritmo pode prever suas preferências com mais precisão do que sua mãe. Parece prático, mas Rivera vê um preço alto nessa conveniência: “Perdemos a liberdade, a capacidade de sermos nós mesmos — e até a imaginação.”

Escravos digitais: o preço invisível da conveniência

“O perigo da IA não é a máquina — é a nossa preguiça de pensar”
© Pexels

Segundo a autora, vivemos em uma realidade em que “trabalhamos de graça para o Instagram”. Cada foto publicada, cada curtida e cada segundo de rolagem alimentam sistemas que transformam nossos dados em lucro — mas sem que percebamos.

O problema, explica Rivera, é que nos tornamos preguiçosos. Não pensamos mais nas salas de espera, não nos entediamos, não ficamos sozinhos com nossas ideias. “Pegamos o celular o tempo todo, e os momentos que antes serviam para refletir foram tomados por estímulos constantes”, afirma.

Sua proposta de resistência é quase irônica pela simplicidade: pensar. Não se trata de abandonar a tecnologia, mas de recuperar a consciência do que fazemos online. “Só o pensamento crítico pode defender a liberdade individual diante do controle algorítmico.”

Educação digital: entender antes de clicar

Rivera acredita que o primeiro passo é entender como as plataformas funcionam. “Muita gente não percebe que, ao passar horas no TikTok, está trabalhando para a empresa. Os dados de comportamento têm valor econômico — é por isso que o Google é uma das empresas mais ricas do mundo, mesmo sem cobrar por seus serviços.”

Para ela, a solução passa por educação digital e transparência. Aprender a ler os “termos de uso”, rejeitar cookies quando possível e limitar o compartilhamento de informações pessoais são pequenos gestos que ajudam a frear a coleta abusiva de dados.

O verdadeiro perigo não é a IA — é a complacência humana

“A inteligência artificial não vai fazer nada sozinha; ela é só uma sequência de zeros e uns”, diz Rivera. “O perigo real é a nossa preguiça.”

Ela critica o que chama de “adormecimento da vontade humana”: aceitamos ser vigiados, monitorados e influenciados porque é mais fácil deixar que a tecnologia pense por nós. “Preferimos receber ordens. É um medo antigo da liberdade.”

A escritora cita o filósofo Erich Fromm, autor de O Medo à Liberdade, que já no século 20 dizia que o ser humano teme decidir por conta própria. “Hoje, só trocamos o chefe ou o Estado pelo algoritmo”, resume Rivera.

Quando o computador decide por você

O perigo de confiar cegamente em sistemas automatizados não é teórico. Estudos mostram que as pessoas tendem a acreditar mais em uma resposta dada por um computador do que na própria intuição — mesmo quando o resultado é absurdo.

Rivera alerta para o risco de delegar decisões críticas a algoritmos, especialmente em áreas como saúde, segurança pública e justiça. “Quando deixamos uma IA decidir, podemos estar entregando questões de vida ou morte a um sistema que só entende estatísticas.”

Denunciantes e resistência dentro das big techs

A jornalista lembra casos emblemáticos de profissionais que enfrentaram gigantes da tecnologia para denunciar abusos. Entre eles:

  • Edward Snowden, que revelou o esquema de vigilância em massa das agências dos EUA;
  • Sophie Zhang, ex-Facebook, que alertou sobre o uso de contas falsas por governos para manipular a opinião pública;
  • Timnit Gebru, demitida do Google após denunciar discriminação racial e de gênero nos algoritmos;
  • E Guillaume Chaslot, ex-YouTube, que mostrou como o sistema de recomendações empurrava os usuários para conteúdos radicais e teorias da conspiração.

Esses casos, diz Rivera, mostram que o problema não está nas máquinas, mas nas pessoas que as controlam — e na falta de ética de empresas que priorizam engajamento e lucro acima de tudo.

Como resistir à manipulação algorítmica

Para Rivera, não é possível se desconectar completamente — mas é possível dificultar o trabalho das plataformas. Ela sugere algumas medidas simples:

  • Usar navegadores que bloqueiam rastreamento;
  • Rejeitar cookies sempre que possível;
  • Controlar o tempo gasto em redes sociais;
  • E, principalmente, entender o modelo de negócios por trás de cada aplicativo.

“Quando você entende o jogo, já não é mais peão”, diz. “O conhecimento é a única forma de resistência.”

Criatividade, empatia e solidariedade: o que a IA jamais terá

Apesar das críticas, Rivera não é contra a tecnologia — mas lembra que a IA nunca será capaz de criar algo genuinamente novo ou compassivo.

“Um programa de computador não pode inventar o que não existe nos dados. Ele não tem criatividade, empatia ou solidariedade. Essas são qualidades humanas, e são exatamente o que precisamos preservar.”

Pensar é o novo ato de rebeldia

Laura G. de Rivera não quer que o leitor fuja da tecnologia — quer que ele recupere o poder de decidir. Para ela, resistir ao algoritmo começa com um gesto simples, quase banal, mas revolucionário: pensar antes de deslizar o dedo na tela.

Afinal, como ela conclui, “a inteligência artificial pode até ser poderosa, mas nada é mais perigoso do que a estupidez humana quando ela deixa de pensar por conta própria”.

[Fonte: Correio Braziliense]

Você também pode gostar

Modo

Follow us