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Ciência

O plano da Europa para interceptar o próximo visitante interestelar como 3I/ATLAS: a missão que quer surpreender o cosmos antes que ele passe

A missão Comet Interceptor, da Agência Espacial Europeia, quer alcançar o próximo objeto interestelar — ou o próximo cometa “novo” — que entrar no Sistema Solar. Um estudo recente analisa os desafios para encontrar um alvo adequado no tempo certo, dentro das limitações de combustível, trajetória e velocidade impostas pelo projeto.
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Tempo de leitura: 3 minutos

Desde que objetos como ’Oumuamua e 3I/ATLAS cruzaram o Sistema Solar, cientistas perceberam o valor científico de observá-los de perto. Mas esses visitantes são raros e imprevisíveis. A ESA planeja mudar esse cenário com o Comet Interceptor, uma missão que será lançada antes mesmo de saber qual será seu alvo. Um novo estudo liderado por Colin Snodgrass, da Universidade de Edimburgo, examina as dificuldades reais de encontrar o candidato ideal.

A missão que espera pelo alvo: como funciona o Comet Interceptor

O Comet Interceptor (CI) é uma missão de classe F da ESA — projetos de desenvolvimento rápido — com lançamento previsto para 2029. A nave ficará “em espera” no ponto de Lagrange L2 Terra-Sol, observando o espaço até que surja um candidato adequado: um cometa dinamicamente novo (DNC) ou, com muita sorte, um objeto interestelar.

DNCs são cometas que entram pela primeira vez no Sistema Solar interior, comportando-se de forma semelhante a visitantes interestelares como o 3I/ATLAS. A vantagem: são muito mais comuns.

O desafio dos visitantes interestelares: raros, velozes e imprevisíveis

Cometa interestelar lança jato de gelo e poeira rumo ao Sol
© https://x.com/zozyalco

Embora a missão possa, em teoria, interceptar um objeto interestelar, o estudo indica que a probabilidade disso acontecer “no momento perfeito” é extraordinariamente baixa.

Visitantes interestelares passam rápido, têm velocidades altas e percursos difíceis de prever com antecedência suficiente para que a CI deixe L2, acelere e cruze sua trajetória a tempo.

Ainda assim, a possibilidade não está descartada — apenas improvável.

Os cometas dinamicamente novos: a aposta mais realista

De 1898 a 2023, foram catalogados 132 cometas dinamicamente novos, mas a maioria é:

  • extremamente tênue,

  • descoberta muito tarde,

  • detectada apenas meses antes de cruzar o Sistema Solar interior.

É aqui que entra o LSST, o novo observatório do Vera C. Rubin. Ele deve identificar DNCs com muito mais antecedência, permitindo que a equipe da CI avalie não só a órbita, mas se o comportamento do cometa vale a viagem.

As duras restrições da missão: combustível, geometria, velocidade e risco

O estudo de Snodgrass analisa a missão como um problema de teoria dos jogos: entre centenas de possibilidades, qual alvo maximiza a chance de sucesso dentro das limitações da sonda?

Entre as principais restrições estão:

  • Delta-v máximo: 1,5 km/senergia limitada para alcançar o cometa.

  • Intercepção entre 0,9 e 1,2 UA, na vizinhança da órbita da Terra.

  • Passagem pelo plano da eclíptica, onde a nave realmente consegue viajar.

  • Ângulo solar entre 45° e 135°, para manter os painéis solares ativos.

  • Velocidade de sobrevoo < 70 km/s, para evitar danos fatais às sondas menores liberadas pela CI.

  • Nível de desgasificação adequado, nem tão fraco que seja desinteressante, nem tão forte que destrua a sonda — o cometa Halley é considerado o limite superior.

Com tantas exigências simultâneas, pouquíssimos cometas históricos seriam alcançáveis.

Quantos cometas realmente seriam possíveis? O estudo responde

Os pesquisadores analisaram dois métodos:

1. Seleção pelos “melhores candidatos científicos”

Critérios: cometas brilhantes (magnitude < 10), entrando no Sistema Solar e com boa atividade.
Resultado: nove candidatos iniciais.
Problema: nenhum atendia às restrições de engenharia.

2. Seleção pela “viabilidade de alcance”

Critérios: obedecer ao delta-v de 1,5 km/s, manter limites físicos e ainda ser cientificamente interessante.
Resultado: três cometas possíveis, todos encontrados nos últimos 25 anos.

Entre eles, o melhor foi C/2001 Q4 (NEAT):

  • descoberto 2,5 anos antes do periélio,

  • suficientemente ativo,

  • alcançável dentro do orçamento de energia,

  • porém com um sobrevoo muito rápido: 57 km/s, arriscando danificar as sondas e reduzindo o tempo útil de coleta de dados.

A missão terá de aceitar um alvo “bom o bastante”

Estamos diante da possível descoberta do século? A NASA detecta pela primeira vez sinais de um elemento vital fora do Sistema Solar no cometa interestelar 3I/ATLAS
© NASA.

Como a janela prática para encontrar um alvo é de apenas 2 a 3 anos a partir do lançamento, a chance de surgir um cometa perfeito é baixa. Os operadores provavelmente precisarão escolher um alvo suficientemente bom, aceitando riscos e incertezas inevitáveis.

Esse é o paradoxo da missão:
ela é projetada antes de saber o que vai investigar.

Uma nova era para explorar o desconhecido (e talvez para encontrar Rama)

O sucesso da CI dependerá fortemente do LSST e de um pouco de sorte. Se tudo correr bem, a missão poderá ser a primeira a observar de perto um DNC em seu primeiro mergulho no Sistema Solar interior.

E, no cenário mais improvável — mas não impossível — a CI pode até interceptar um novo visitante interestelar. Se isso acontecer, como brincam alguns astrônomos, ele mereceria um nome à altura da ficção científica:

Rama, como o objeto interestelar do clássico de Arthur C. Clarke.

A partir de 2029, a Europa entrará oficialmente no jogo de capturar o desconhecido antes que ele desapareça para sempre no espaço profundo.

 

[ Fonte: El Confidencial ]

 

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