Reciclar plástico parece uma solução simples até chegar o momento de lidar com resíduos misturados, contaminados ou difíceis de reaproveitar. Grande parte desse material perde valor a cada ciclo ou sequer encontra uma segunda utilização adequada. Na Espanha, um novo projeto está tentando mudar essa equação com tecnologias capazes de transformar resíduos problemáticos em produtos químicos e materiais muito mais valiosos para diferentes setores industriais.
O problema não é apenas recolher o plástico que jogamos fora
Separar garrafas e embalagens é apenas o começo de uma cadeia muito mais complicada.
Existem diferentes tipos de plástico, aditivos, pigmentos e combinações de materiais que dificultam o reaproveitamento. Enquanto determinados resíduos podem ser triturados, processados e utilizados novamente, outros apresentam características que tornam a reciclagem convencional pouco eficiente.
É justamente nesse grupo que surge uma oportunidade tecnológica.
O centro tecnológico espanhol AIMPLAS coordena o projeto europeu SUPREM, iniciativa criada para desenvolver novas maneiras de aproveitar resíduos plásticos complexos. A proposta não é simplesmente transformar uma embalagem velha em outra embalagem semelhante, mas extrair componentes capazes de voltar à indústria como matérias-primas de maior valor.
O projeto conta com um orçamento de aproximadamente 4,7 milhões de euros e reúne 11 parceiros de seis países europeus. A iniciativa começou em junho de 2025 e tem duração prevista de 42 meses.
O objetivo final é demonstrar que processos hoje estudados em escala experimental podem funcionar também em condições próximas das encontradas na indústria.
E para isso será necessário desmontar o plástico de uma maneira bastante diferente da reciclagem tradicional.
Em vez de simplesmente derreter o plástico, a ideia é recuperar suas peças químicas

Um dos pontos centrais do SUPREM está no tratamento de resíduos de poliuretano e PET, dois materiais encontrados em diversos produtos cotidianos e industriais.
O poliuretano aparece, por exemplo, em espumas utilizadas em móveis, colchões, isolamento e componentes automotivos. Já o PET é conhecido principalmente pelas garrafas de bebidas, embora tenha inúmeras outras aplicações.
O projeto pretende utilizar diferentes processos de reciclagem química e enzimática para recuperar moléculas presentes nesses materiais. Entre as tecnologias estudadas estão hidrólise, glicólise e aminólise.
A diferença é importante.
Na reciclagem mecânica, o material geralmente passa por processos físicos para ser utilizado novamente. Já algumas tecnologias químicas procuram quebrar os polímeros em componentes menores, permitindo recuperar substâncias que podem servir como matéria-prima para novos produtos.
No caso do SUPREM, o objetivo inclui recuperar compostos como ácido tereftálico, etilenoglicol, polióis e aminas.
Essas substâncias poderão posteriormente seguir caminhos muito diferentes daquele plástico que lhes deu origem.
É nesse momento que o projeto deixa de ser apenas uma iniciativa de reciclagem e começa a entrar no território da chamada valorização de resíduos.
O plástico descartado pode terminar em produtos completamente diferentes

Depois de recuperar os componentes químicos, os pesquisadores pretendem utilizá-los na produção de materiais com maior valor agregado.
Entre as aplicações previstas aparecem novos poliuretanos, revestimentos, adesivos, poliésteres e poliamidas. Algumas dessas soluções poderão chegar a setores como construção civil, indústria automotiva, calçados e embalagens.
Há também uma vertente particularmente interessante: determinados compostos recuperados poderão ser transformados em ingredientes para cosméticos e produtos destinados à alimentação animal.
Isso significa que o objetivo não é necessariamente manter o material dentro do mesmo ciclo de utilização.
Uma embalagem descartada, por exemplo, poderá fornecer moléculas aproveitáveis em uma cadeia produtiva completamente diferente.
O projeto pretende ainda avaliar a segurança e a qualidade das substâncias recuperadas, algo fundamental quando materiais reciclados são destinados a aplicações de maior exigência.
A iniciativa segue princípios de economia circular e busca reduzir tanto o volume de resíduos quanto a necessidade de recorrer constantemente a novas matérias-primas de origem fóssil.
Mas existe uma etapa decisiva antes de imaginar fábricas utilizando essas tecnologias em larga escala.
O grande teste será descobrir se tudo isso funciona fora do laboratório
Transformar resíduos em moléculas úteis em condições controladas é uma coisa. Fazer isso de maneira economicamente viável, segura e eficiente em escala industrial é outra completamente diferente.
Por isso, uma das metas do SUPREM é demonstrar os processos em níveis de maturidade tecnológica mais elevados.
Os pesquisadores pretendem desenvolver e validar diferentes etapas da cadeia, desde o tratamento dos resíduos até a produção dos materiais finais. Também serão analisados aspectos ambientais, econômicos e de segurança.
Essa avaliação é essencial porque uma tecnologia de reciclagem não se torna automaticamente sustentável apenas por recuperar plástico.
É necessário considerar quanta energia o processo consome, quais produtos químicos utiliza, quanto custa operar as instalações e se os materiais resultantes realmente conseguem competir com alternativas convencionais.
Se essas barreiras forem superadas, tecnologias desse tipo poderão atacar um dos pontos mais difíceis da economia circular: transformar resíduos que hoje possuem pouco valor em recursos interessantes para a própria indústria.
O plástico descartado, nesse cenário, deixa de ser visto apenas como algo que precisa desaparecer do ambiente.
Ele passa a funcionar como uma espécie de depósito de moléculas que ainda podem ser recuperadas.
E os 4,7 milhões de euros destinados ao projeto servirão justamente para descobrir até onde essa ideia consegue chegar.
[Fonte: cronista]