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Ciência

O DNA já consegue armazenar livros, músicas e enciclopédias inteiras; agora cientistas descobriram como reescrevê-lo para guardar dados por milhares de anos

A busca por novas formas de armazenar informações acaba de dar mais um passo rumo ao futuro. Pesquisadores demonstraram um sistema capaz de reescrever dados em moléculas de DNA, transformando o material genético em uma espécie de disco rígido biológico. A tecnologia promete armazenar quantidades gigantescas de informação durante séculos — ou até milênios.
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Tempo de leitura: 4 minutos

Vivemos em uma era de explosão de dados. Fotos, vídeos, mensagens, documentos e conteúdos gerados por inteligência artificial se acumulam em ritmo acelerado. Embora a computação em nuvem pareça algo abstrato, toda essa informação precisa existir fisicamente em servidores espalhados pelo mundo.

O problema é que a quantidade de dados cresce muito mais rápido do que a capacidade de armazenamento convencional. Diante desse cenário, cientistas vêm explorando uma alternativa improvável, mas extremamente promissora: usar o DNA como meio de armazenamento digital.

Um problema que cresce sem parar

Estimativas recentes apontam que o universo digital ultrapassou os 180 zettabytes de informação. Para se ter uma ideia da escala, um único zettabyte corresponde a um trilhão de gigabytes.

O crescimento é tão acelerado que especialistas alertam para um possível gargalo nas próximas décadas. A produção de silício, matéria-prima utilizada em chips e unidades de armazenamento modernas, pode não acompanhar a demanda crescente por memória digital.

Grande parte dos dados produzidos atualmente não precisa estar disponível instantaneamente. Arquivos históricos, registros governamentais, documentos científicos e coleções culturais permanecem armazenados durante anos sem serem acessados. É justamente nesse nicho que o DNA surge como uma alternativa revolucionária.

A molécula criada pela natureza

Molecula
© Getty Images -Unsplash

O DNA foi desenvolvido pela evolução para armazenar informações biológicas. Sua estrutura utiliza quatro bases químicas — adenina (A), timina (T), citosina (C) e guanina (G) — que funcionam como um código capaz de armazenar instruções genéticas.

A ideia de usar esse sistema para guardar informações digitais surgiu ainda na década de 1960. Visionários como o físico Richard Feynman já imaginavam um futuro em que dados poderiam ser gravados em escalas moleculares extremamente pequenas.

As primeiras experiências práticas vieram décadas depois. Em 1988, o artista e pesquisador Joe Davis conseguiu armazenar uma imagem simples em uma sequência de DNA inserida em bactérias. Embora rudimentar, o experimento demonstrou que a ideia era viável.

Nos anos seguintes, pesquisadores conseguiram armazenar textos, imagens, programas de computador e até livros inteiros utilizando moléculas sintéticas de DNA.

Quando Shakespeare e a Wikipédia viraram DNA

A evolução da tecnologia foi rápida. Em 2013, cientistas do Instituto Europeu de Bioinformática desenvolveram um método capaz de recuperar arquivos armazenados em DNA com precisão total.

A técnica foi utilizada para codificar documentos históricos, incluindo os 154 sonetos de Shakespeare.

Poucos anos depois, os avanços permitiram armazenar conteúdos muito maiores. Em 2018, o álbum “Mezzanine”, da banda Massive Attack, foi convertido em DNA. Em seguida, pesquisadores conseguiram registrar os cerca de 16 gigabytes da Wikipédia em inglês utilizando o mesmo princípio.

A capacidade impressiona. Segundo estimativas do Instituto Wyss, da Universidade Harvard, um único grama de DNA poderia armazenar centenas de petabytes de informação. Em teoria, toda a informação digital produzida pela humanidade caberia em uma quantidade de DNA equivalente a poucos quilos.

A grande novidade: um DNA que pode ser reescrito

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© Pexels

Até recentemente, o armazenamento em DNA funcionava de forma semelhante a gravar informações em pedra. Depois de sintetizada, a sequência permanecia praticamente imutável.

Agora, pesquisadores da Universidade do Missouri apresentaram uma solução diferente. Em vez de criar novas moléculas para cada arquivo, eles desenvolveram um sistema capaz de modificar informações já registradas no DNA.

Segundo os autores do estudo, a técnica adiciona uma camada flexível de informação sobre a molécula existente, permitindo alterar dados sem reconstruir todo o material genético.

Os pesquisadores comparam a diferença a escrever em uma lousa apagável em vez de esculpir palavras em uma rocha. Isso reduz custos, aumenta a flexibilidade do sistema e amplia significativamente suas possíveis aplicações.

Dados que podem sobreviver por milhares de anos

Uma das maiores vantagens do DNA é sua extraordinária durabilidade.

Quando armazenado em condições adequadas, ele pode preservar informações durante séculos. Em experimentos realizados na Suíça, cientistas encapsularam DNA em nanopartículas de sílica, criando uma espécie de fóssil artificial.

Os testes indicam que esses arquivos poderiam permanecer legíveis por cerca de dois mil anos em temperatura ambiente e até milhões de anos sob congelamento.

Além disso, o DNA possui uma vantagem rara no mundo da tecnologia: ele é praticamente imune à obsolescência. Enquanto formatos como disquetes, CDs e DVDs desaparecem com o tempo, as técnicas de leitura genética continuam evoluindo graças à importância do DNA para a medicina e para as biociências.

O futuro do armazenamento pode estar dentro dos organismos

Os pesquisadores acreditam que o DNA dificilmente substituirá os discos rígidos ou os servidores convencionais. Seu papel deverá ser complementar, especialmente para arquivos de longo prazo que precisam ser preservados por décadas ou séculos.

As aplicações vão muito além do armazenamento de documentos históricos. Cientistas já estudam o uso de DNA para autenticação de produtos, combate à falsificação, proteção criptográfica e até registro de informações médicas dentro do próprio organismo.

Embora ainda existam desafios relacionados ao custo e à velocidade de gravação, empresas e laboratórios já investem pesado nessa área. A expectativa dos especialistas é que as primeiras aplicações comerciais em larga escala surjam na próxima década.

Se isso acontecer, a molécula que preservou a história da vida por bilhões de anos poderá se tornar também a guardiã da memória digital da humanidade.

[ Fonte: La Nación ]

 

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