Mais de 1 milhão de garrafas plásticas de água são compradas a cada minuto no mundo. E não é necessariamente porque as pessoas desconhecem os problemas relacionados ao plástico.
Uma pesquisa com mais de 15 mil participantes encontrou uma contradição interessante: 75% acreditavam que garrafas descartáveis continham micro ou nanoplásticos. Mesmo assim, isso não era suficiente para impedir seu consumo.
O motivo parece ser muito mais prático. Quando alguém está com sede e não encontra onde encher uma garrafa reutilizável, comprar água engarrafada continua sendo a solução mais fácil.
78% enfrentam dificuldades para encontrar água potável

O estudo, publicado no Journal of Cleaner Production e realizado por pesquisadores da Universidade Concordia, no Canadá, analisou participantes de 81 países.
O questionário avaliou consumo de água engarrafada, reciclagem, uso de recipientes reutilizáveis, publicidade, percepção de riscos e acesso à água potável.
Um resultado se destacou: quase 78% dos participantes disseram encontrar regularmente situações nas quais não tinham acesso fácil à água potável.
E essa dificuldade estava associada ao maior consumo de garrafas descartáveis.
Uma pessoa pode sair de casa carregando sua própria garrafa. Mas, depois de algumas horas sem encontrar uma fonte ou estação de abastecimento, provavelmente terá poucas alternativas além de comprar água.
Isso transforma um problema normalmente apresentado como ambiental em uma questão também relacionada à infraestrutura.
Saber sobre microplásticos não necessariamente muda hábitos
A maioria dos participantes demonstrou conhecer possíveis problemas relacionados ao plástico.
Cerca de 75% acreditavam que garrafas descartáveis continham micro e nanoplásticos. Outros 70% afirmaram acreditar em uma relação entre esses materiais e câncer.
Esse último resultado precisa ser interpretado com cuidado: trata-se da percepção dos entrevistados, e não de evidência de que beber água engarrafada provoque câncer.
Ainda assim, o resultado mostra que preocupação não necessariamente se transforma em mudança de comportamento.
Os pesquisadores também alertam para uma limitação da amostra. Estados Unidos e Canadá tiveram forte representação no levantamento, portanto os percentuais não podem ser considerados igualmente representativos de todos os 81 países.
Existem diferentes tipos de consumidores
A pesquisa identificou três perfis principais.
Os chamados “viajantes práticos” compram água principalmente por conveniência e mobilidade. Para eles, aumentar a quantidade de fontes e pontos de abastecimento poderia reduzir diretamente o uso de embalagens descartáveis.
Outro grupo, definido como “urbanitas influenciados”, demonstrou maior sensibilidade à publicidade, mídia e normas sociais. A percepção de que a água engarrafada seria mais segura ou de melhor qualidade também influencia suas escolhas.
Finalmente, existem consumidores mais conscientes e ativos, cujo uso de garrafas descartáveis depende principalmente das circunstâncias e de necessidades específicas.
A publicidade também apareceu associada ao consumo. Pessoas que declararam maior exposição a anúncios de água engarrafada tendiam a utilizar mais garrafas descartáveis.
Reciclar mais não significa consumir menos

Outro resultado chama atenção.
Participantes mais jovens e com maior nível educacional utilizavam mais garrafas descartáveis, embora também declarassem reciclar com maior frequência. Pessoas mais velhas, por outro lado, carregavam recipientes reutilizáveis com maior frequência.
Isso mostra que reciclagem e redução do consumo são comportamentos diferentes.
Mesmo quando reciclada, uma garrafa precisa ser fabricada, transportada, refrigerada em alguns casos, coletada e processada novamente.
Uma garrafa reutilizável muda essa lógica porque pode substituir dezenas ou centenas de embalagens ao longo de sua vida útil.
A solução pode estar nas torneiras, não nas campanhas
Quase todos os participantes disseram que evitariam garrafas descartáveis caso tivessem acesso a uma alternativa confiável de água limpa.
Isso não garante que todos realmente mudariam de comportamento. Existe diferença entre aquilo que uma pessoa declara em um questionário e o que faz no cotidiano.
Mas oferece uma pista importante.
Fontes públicas, estações de abastecimento em escolas, universidades, aeroportos, estações e centros comerciais podem tornar a alternativa reutilizável mais conveniente.
A conclusão é simples: conscientizar sobre plástico continua sendo importante, mas pode não bastar. Para que milhões de pessoas deixem de comprar uma nova garrafa quando sentem sede, a alternativa precisa estar disponível exatamente onde elas precisam dela.
[ Fonte: EcoInventos ]