As experiências de quase-morte (EQM) sempre intrigaram médicos, psicólogos e filósofos. Muitos relatos pareciam transcender qualquer lógica biológica, mas um estudo da Universidade de Liège, na Bélgica, propõe um novo caminho para entender esse fenômeno. O modelo, batizado de NEPTUNE, revela que uma “tempestade química” no cérebro pode ser a chave para compreender o que acontece quando a vida está por um fio.
A tempestade química no cérebro
De acordo com o modelo, após uma parada cardíaca ou falência orgânica grave, o cérebro não se apaga de imediato. Pelo contrário, entra em um estado de hiperatividade intensa e breve. Nesse processo, ocorre uma liberação maciça de neurotransmissores como serotonina, dopamina, glutamato, GABA e endorfinas.
Cada substância desempenha um papel específico: a serotonina gera visões comparáveis às provocadas por psicodélicos; as endorfinas proporcionam calma e alívio da dor; já a dopamina confere forte carga emocional, dando ao episódio uma sensação de realidade incontestável.
Túneis luminosos e lembranças vívidas
O modelo NEPTUNE também ajuda a compreender os elementos clássicos das EQM, como túneis de luz, encontros com pessoas já falecidas e uma sensação profunda de amor e paz. Neurotransmissores como a acetilcolina e a noradrenalina reforçam os circuitos de memória, permitindo que pacientes recordem esses episódios em detalhes, mesmo estando inconscientes do ponto de vista clínico.
Os cientistas, no entanto, ressaltam que nem todas as experiências são positivas. Algumas podem incluir visões sombrias e sentimentos de angústia, influenciados pelo estado físico, mental e pelas crenças individuais.

Um possível mecanismo de sobrevivência
Para a pesquisadora Charlotte Martial e sua equipe, as EQM podem ter um valor adaptativo. Assim como alguns animais entram em tanatose — fingindo-se de mortos para escapar de predadores —, o cérebro humano ativaria um estado dissociativo durante situações extremas. Esse mecanismo reduziria a percepção da dor sem apagar completamente a consciência.
Entre ciência e transcendência
O modelo NEPTUNE não busca negar a dimensão espiritual que muitos atribuem às experiências de quase-morte. Pelo contrário, sugere que, em condições-limite, o cérebro é capaz de organizar vivências intensas, coerentes e profundamente transformadoras, que para muitos parecem “mais reais que a própria vida”.
Compreender esses mecanismos não apenas amplia o conhecimento científico sobre a consciência, mas também reacende o debate sobre os limites entre a vida e a morte — um território onde biologia e transcendência continuam inevitavelmente entrelaçadas.